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Ruptura em três acordes – Duas perguntas para Nick Hornby
Pergunta - O que o punk tinha de tão extraordinário? Hornby - O grande lance é que, nos dez anos precedentes, o rock tinha começado a ser visto seriamente, de uma maneira muito pomposa, e o punk destruía essa seriedade pomposa. Por exemplo, havia um terrível crítico musical no "Sunday Times" que adorava o Yes e o Pink Floyd, defendendo que aquilo é que era música autêntica, séria e complexa como a música erudita. E, a meu ver, pessoas como ele estavam acabando com o rock, porque queriam vendê-lo a meus pais e a todo tipo de gente que não seria capaz de entender ou apreciar aquilo. A essa altura, de repente, surgem uns caras que só conhecem três acordes, sujeitos crus e simples ao extremo, e isso era para mim, e continua sendo, o ponto central. Eu não estava à procura de uma nova música erudita nem buscava complexidade ou seriedade. Eu queria alegria, velocidade e o volume no máximo. Com os olhos de hoje, vejo que a música punk me fez pensar muito, sobre um monte de coisas. Foi uma fantástica educação cultural.
Pergunta - Em sua opinião, quais foram os melhores momentos da era punk? Hornby - Em 1977, a colisão do punk com o Jubileu de Prata da rainha [Elizabeth 2ª] foi um momento bem interessante. Em junho, a BBC maquiou as vendas de "God Save the Queen" [Deus Proteja a Rainha], dos Sex Pistols, para que a música não ficasse no topo da parada durante as comemorações do Jubileu. Outros grandes momentos: o primeiro álbum do Clash, se bem que meu álbum preferido do grupo seja "London Calling" [1979], lançado na verdade quando os dias gloriosos do punk já haviam passado. E os concertos "Rock against Racism" [Rock contra o Racismo]. Mas não se tratava de muitos momentos grandes e isolados. Tudo foi um único, longo e forte momento.
[do caderno Mais! em 19/03/2006, com imagem do passaporte cancelado de Sid Vicious – relíquia encontrada pelo Pesa-Nervos]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h35
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Tela de Jorge Eiró
Setembro. O vento
[de Max Martins]
Setembro. O vento raja-o
Rasga
e fere-lhe os ombros, menoscaba-o
Sanguíneo olhar agora luze ali
onde a lua de lábios pulsa
expulsa
a sua maré em sépia, fósforo-tardia
Entre o dia da dúvida e a horas das algemas
todas as janelas se fecham: O céu
à tua leitura
o livro lívido à tua aventura
E as folhas caem
desta árvore muda se despindo
estéril
caligráfica
Todos os vôos voltam à sua origem
ao alvo de tua culpa
ao nono mês, ao Mesmo
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h46
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Ardente texto Joshua, Abertura
[de Maria Gabriela Llansol]
– Se eu nada fizer, nada existirá.
– Mas, se fizeres, poderá existir. Ou não.
– Sempre a inexistência tem mais força? – pergunto. Mas não particularmente a ela.
– É a graça, Gabriela – diz. Um dom.
E escreve no seu caderno: “um dom vem colocar-se ao lado do meu fazer para o proteger do nada”.
Escreve para que fique escrito. Para que esse nada leia, e não se equivoque. Note-se________ mesmo quando escreve, nada está decidido. Tudo está por decidir, mas nada está decidido para que assim não seja. Há naquela frase – a que está escrita no caderno –, a disposição de um combate.
Prefiro escrever, desde já, o que sempre, aliás, esteve escrito. Não será traçada, neste texto, a mesma resposta. Convém, no entanto, que fique dito ____ há uma pergunta própria dos que, alguma vez, se amaram em torno do ardente texto Joshua para além da resposta que, de facto______
Sim, houve um momento em que estivemos inquietas na mesma pergunta. Sei que estaremos sempre – ou num tempo incomensurável –, nela inquietas.
Ela ia morrer.
E morreu, Teresa Martin, beguina, filha de Hadewijch de Antuérpia, doutora da Igreja.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h26
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Luiza Neto Jorge, 1939-1989
SO-NETO JORGE, Luiza
A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu delizo;
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos – íntimos, insuspeitos –
já caem com a calma as avestruzes
– ou a distância, com os oásis, finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fungo pego, e à vinda.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h40
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Dois poemas de Orides Fontela
Jogo
Como a túnica é uma
só
os dados rolam
no verde.
Como a túnica é
única
são necessários
os dados.
Seis faces brancas e os
signos
que decidirão
a posse:
um movimento, um
risco
e a decisão no
verde
impressa.
A túnica
permanecerá intata.
Kairós
Quando pousa
o pássaro
quando acorda
o espelho
quando amadurece
a hora.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h10
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El califa de Constantino, Théodore Chassériau, 1845
O Alcaide de Santarém
(modificado de Alexandre Herculano)
Alguém vela,
talvez,
no paço de Merwan.
No de Azarat,
posto que nenhuma luz bruxuleie
nas centenas de varandas,
de miradouros,
de pórticos, de balcões
que lhe arrendam
o imenso circuito,
alguém vela por certo.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h53
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Robert Browning
[tradução de José Lino Grünewald]
Encontro à noite
O mar cinzento, a longa terra escura,
Baixa, ampla, meia-lua amarelada,
E as ondas em alarme a se impelir
Em ígneos aros vindos ao dormir;
Com proa em riste chego à enseada,
E afogo a rapidez na areia impura.
Milha de praia quente, odor de mar;
Três campos a cruzar, até o recanto;
Um bater na vidraça, o lesto riscado
E jato azul de um fósforo inflamado;
Voz menos alta, em seu temor e encanto,
Então dois corações: soar soar.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h09
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O estrangeiro – de Charles Baudelaire
[tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira]
A quem mais amas, responde, homem enigmático: a teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Teus amigos?
- Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.
- Tua pátria?
- Ignoro em que latitude está situada.
- A beleza?
- Gostaria de amá-la, deusa e imortal.
- O ouro?
- Detesto-o como detestais a Deus.
- Então! a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... longe... lá muito longe ...as maravilhosas nuvens!
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h49
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As portas – de Arnaldo Antunes
[do livro As coisas]
Para passar de um lugar a outro existem as portas. Em geral são de madeira, mas Às vezes não. De ferro em geral são os portões, mas às vezes de madeira. Portões de madeira chamam-se porteiras. Para sair de um lugar entrando em outro, como nos partos, as portas existem. As moscas pousam nelas. Os meios de transporte chegam ou vão embora. As portas são meios de transporte que ficam no mesmo lugar. Em geral brancas, como as paredes geralmente. Movem-se mas ficam no mesmo lugar, como o mar. As moscas pousam nelas. As paredes ficam paradas. Aranhas fazem teias nelas. Não nas portas, que têm dois lados; nas paredes, que só têm um lado, ou outro. Os olhos pousam nelas.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h23
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Cisne – de Sebastião Uchoa Leite
[do livro A uma incógnita]
Primeiro
O cisne se evade
Depois é um cisne de outrora
Depois torcem
O pescoço da plumagem
A eloqüência da linguagem
Enfim torcem
O pescoço do cisne
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h51
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A tumba de Edgar Poe – Mallarmé
[tradução de Augusto de Campos, com fotografia de Nadar]
Tal que a Si-mesmo enfim a Eternidade o guia,
O poeta suscita com o gládio erguido
Seu século espantado por não ter sabido
Que nessa estranha voz a morte se insurgia!
Vil sobressalto de hidra ante o anjo que urgia
Um sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio atribu-
Ìdo à onda sem honra de uma negra orgia.
Do solo e céu hostis, ó dor! Se o que descrevo –
A idéia sob – não esculpir baixo-relevo
Que ao túmulo de Poe luminescente indique,
Calmo o bloco caído de um desastre obscuro,
Que este granito ao menos seja eterno dique
Aos vôos da Blasfêmia esparsos no futuro.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h36
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Poema de Manuel António Pina
[Poesia reunida 1974-2001, Lisboa: Assíro&Alvim, 2001]
Hegel, filósofo esporádico?
Ninguém morreu de morte tão natural como Hegel.
Alguns anos antes tinha descoberto, horrorizado,
que Deus o havia colocado exactamente no centro de Tudo.
Morreu como um bárbaro: subitamente o seu
coração parou de bater, e inclinou levemente
a cabeça sobre o lado direito.
É sempre Outro quem escreve. (Como poderia o escritor, ele próprio, mesmo quando é
um Filósofo, reconhecer o que está ali para ser escrito?)
Quem escreveu o poema A Eleusis que Hegel, há 200 anos, dedicou a Hölderlin? Porque combateu a positividade? A que descobertas chegou Schelling, conservador em Berlim, entre os seus papéis? Que mão deitou fogo, em 1946, à sala dos Apócrifos do Museu Gnótico de Tübingen?
22 de agosto de 1976
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h46
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Günter Kunert
[traduçãoTeresa Balté]
Filme – enrolado ao contrário
Quando acordei
Acordei no negro abafado
Do caixote. Ouvi: a terra abriu-se
À minha cabeceira. Torrões
Voaram adejantes de regresso à pá.
A caixa cara comigo o caro
Extinto subiu rapidamente.
A tampa levantou-se e eu
Ergui-me e senti: três
Tiros saíram do meu peito
Para as armas dos soldados que
Se puseram em marcha aspirando
Do ar uma canção
Num passo calmo e firme
Para trás.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h42
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Boca maldita – de Ricardo Corona
[Lançamento de Corpo Sutil]
ter a língua solta
contradizer até o fim
ter a língua má
um não se faz um sim
dar à rasa razão
o mais raro sentido
manter a boca aberta
meter a boca no mundo
falar na hora errada
coisas certas que vêm do fundo
boca maldita que não é beata
língua má que não cria fungo
***
[Corpo Sutil (Ed. Iluminuras), de Ricardo Corona, Ode mundana (Ed. Medusa), de Luiz Felipe Leprevost e Criptógrafo amador (Ed. Medusa), de Marcelo Sandmann serão lançados na próxima segunda-feira, dia 20 de março, no Original Café a partir das 20 horas. O endereço do café é o seguinte: Vicente Machado, 622, Centro, Curitiba. Mais informações pelo telefone: (41) 3323-4548. Além dos livros, será lançado ainda o número sete da revista de poesia e arte Oroboro, com poemas de Diego Vinhas, textos de Maria Esther Maciel e Wilson Bueno e um ensaio do mais que importante Bataille. Enfim, o evento é imperdível e necessário. Para quem não puder aparecer, pode comprar tanto os livros quanto a revista pelo seguinte endereço: editoramedusa@terra.com.br].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h20
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Duas histórias de Gonçalo M. Tavares
O gatinho
Havia um gatinho que todos os fins de tarde se aproximava do dono e lhe lambia os sapatos com a sua língua minúscula.
Vencendo uma certa timidez e uma certa precaução higiênica, o homem um dia decidiu descalçar-se para observar se o gato lhe lambia os pés como fazia aos sapatos.
Foi aí que o tigre, que se disfarçara de gato durante anos, decidiu que era o seu momento, e em vez de lamber, comeu.
Torcicolo
A mulher do Rei, que gostava de passear pelo reino a ver como iam as coisas, um certo dia fez um pequeno torcicolo no pescoço que a impedia de rodar a cabeça. Como o pescoço da Rainha não melhorava o rei ordenou que todo o país começasse a funcionar em trajetórias circulares à frente da varanda do palácio.
[do livro O senhor Bretch, 2005]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h14
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