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Dois poemas de 1960 (Carlos de Oliveira)
Vento
As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.
Bolor
Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto
os rostos a apagar-se
no frêmito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste amor.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h20
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O trabalho poético de Carlos de Oliveira
Carlos de Oliveira (1921-1981) nasceu no Brasil, filho de portugueses, voltando a Portugal com apenas dois anos de idade. Publicou seu primeiro livro de poesia em 1942 e foi sob o ideário do Neo-Realismo português que começou a produzir romances e poemas: a escrita literária era instrumento sobretudo de intervenção social. Com a passagem do tempo, entretanto, a palavra, em sua obra, foi se impondo como realidade primeira e mais necessária. Em relação a isso, seu livro Cantata, de 1960, é o local de virada: nele a contenção imagética e a concentração rítmica dominam e a metalinguagem torna-se prática recorrente. Mas isso não significa dizer que Carlos de Oliveira, a partir de então, rejeita as questões neo-realistas. Em verdade, o escritor as desenvolve e as reelabora, tanto que retorna às obras das décadas de 40 e 50 para reescrevê-las, suprimindo o excesso de linguagem: “correcções, rasuras, acrescentos, são o meu forte (e o meu fraco)” dizia.
Sua poesia é o espaço de discussão da mímesis, das possibilidades da linguagem: freqüente tenção entre ficção e real. A natureza afeta a escrita, contaminando-a, transformando-a em paisagem. Paisagem esta que também é a Gândara, região arenosa de Portugal onde o poeta cresceu. Assim, marcas desse espaço como cal, duna e estalactite habitam seus versos, construindo por dentro uma poesia áspera que encena horizontes geográficos e lingüísticos. Rever essa paisagem portanto é encontrar na memória um vetor lírico – subjetividade que o poema trabalha a favor e contra o tempo, tornando-se, dessa forma, uma ação de permanência do homem e das palavras no mundo:
“Só o osso, o que em nós é duro, resistente, dá algum sentido (muito relativo) a palavras como eternidade, alma, tempo. Não há outra metafísica possível senão essa. Acredita. A do osso, a do cálcio”.
Toda sua obra poética está reunida no pequeno volume Trabalho poético, ainda inédito em terras brasileiras.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h02
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da série Uma canção só, por Franklin Alves
Algo que perturba, ressoa. Talvez uma arte poética. Uma canção só. Uma página que sempre lemos, a que sempre voltamos. A página da semana é a de número 63 do livro Torquato Neto, Os Últimos Dias de Paupéria (Do Lado De Dentro), edição de 1982, da Max Limonad, lá lemos o seguinte:
Pessoal intransferível
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada nos bolsos e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão. (14/91971 – 3a feira)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h50
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A POESIA AZUL DE FERNANDO KOPROSKI
O poeta atual – devido aos alicerces que fundamentam a poesia de hoje – está quase sempre em uma profunda oscilação entre o caráter dionisíaco e o apolíneo em sua arte. São raros os casos de convivência pacífica entre estes dois extremos. Coloco aqui o apolíneo como sendo a propensão a uma forma “enxuta” à moda cabralina no poema, e, vejo como dionisíaca o acento maior para o conteúdo. Ou seja, para um bom projeto literário é necessário que estas duas forças, as de forma e conteúdo, apolíneo e dionisíaco, estejam lado a lado em uma peça literária; e que elas participem em uma igualdade de força e tensão: proporcionando assim uma estética de completude na escrita de um autor.
O poeta vive na corda bamba. Se ele for excessivamente forma corre o risco de se perder sem conteúdo e se for o oposto, a forma pode ficar prejudicada e o poema embarcar pelos caminhos de uma poesia tíbia: onde a estrutura não possui uma tensão que a peça deve ter. Afinal não são mais tempos de uma escrita grandiloquente em que o poeta se adula de metáforas e linguagem conotativa. Então se faz necessário uma pergunta: como equilibrar a forma e o conteúdo numa poética? Como estar em patamares aceitáveis os níveis de apolíneo e dionisíaco na arte de escrever versos?
Rodrigo de Souza Leão
Continua em http://www.germinaliteratura.com.br
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 09h38
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para Dante Júlio
Um corvo de remota idade e fatigado brilho
vem morrer à beira-mar.
Aguarda atento
que a luz propícia desça no horizonte
para entregar-lhe a força derradeira
numa surtida de acerada angústia.
Descaem-lhe do dorso opaco e magro
as digitais membranas:
acumulam detritos de excremento branco.
Sobe-lhe à tona o olhar antes profundo
a vomitar o fluido da ansiedade.
Projecta-se disperso à contra-luz.
Reduz-lhe o contorno ardendo ao sol poente.
Entra no sonho às cegas ganha altura
e tomba leve e negro no areal fictício.
Breves segundos mais
para que o vento alcance a história curta.
Depois renasce em escamas de carvão.
Ruy Duarte de Carvalho nasceu em Portugal no ano de 1941, mas naturalizou-se angolano em 1963. É antropólogo e cineasta. Como poeta estréia em 1972 com o livro Chão de Oferta. Sua produção poética é praticamente inédita no Brasil, salvo alguns poemas publicados na antologia Poesia Africana de Língua Portuguesa (2003). Este poema é do livro Exercícios de Crueldade (1978).
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h47
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Marianne Moore
Arthur Mitchell
Slim dragonfly
too rapid for the eye
to cage –
contagious gem of virtuosity –
make visible, mentality.
Your jewels of mobility
reveal
and veil
a peacock-tail.
Arthur Mitchell
Pequena libélula
tão rápida que a vista
nem pega –
pérola infectada de virtuosidade –
deixe-se ser visão, mentalidade.
Suas jóias de tanta agilidade
revelam
e velam
a cauda do pavão.
Tradução de Leonardo Gandolfi
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h45
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