Por que fazer poesia hoje?
Qual é o sentido de escrever poemas em uma época e cultura que valorizam os bens de consumo, a cultura de massa, o mercado e a tecnologia, menosprezando os valores espirituais e a expressão artística?
Para que escrever poemas numa sociedade que vive uma profunda crise de valores, distante de qualquer idéia de humanismo?
A primeira resposta poderia ser muito simples: por teimosia, como resistência à barbárie. Porém, este não seria um argumento satisfatório, já que existem outras possibilidades, talvez mais eficazes, de reação, inseridos em movimentos sociais e tentativas de reconstrução de valores, como o recente diálogo entre a física, a ecologia profunda, o pacifismo e o budismo, que fazem pensar numa reordenação do pensamento, em resposta ao crescente utilitarismo de uma visão de mundo baseada no lucro e na vantagem pessoal imediata.
A segunda resposta, ainda mais simplista, porém com o mérito da sinceridade, é o da satisfação sensorial, o encantamento e prazer que a poesia nos provoca. Aqui, novamente, poderia ser levantada uma objeção, pois que há muitas outras formas de satisfação, talvez mais intensas do que o trabalho com a palavra, que exige alto rigor e disciplina.
Para mim, escrever poemas já uma necessidade pessoal, uma escolha de vida, talvez uma tentativa de sobreviver à loucura, mas que não se resume apenas a expressar um mundo interior, de comunicar idéias ou sensações, mas também de construir, pela palavra, uma estrutura, uma lógica, um processo de relações entre significados que ao mesmo tempo satisfazem o eros e colaboram no esforço de se repensar valores.
A poesia não se contenta em ser porta-voz de uma visão de mundo; cada poema é um organismo intricado, uma biosfera com sua própria fauna e flora, como dizia Huidobro; um sonho planejado, com sintaxe e morfologia próprias, que obedecem a uma outra lógica, que não é a do discurso linear. Criar um poema, para mim, é trouver une langue (Rimbaud), mas também trouver une pensée: palavra, idéia e grafia objetivados na escultura semântica.
Por Claudio Daniel – http://peledelontra.zip.net
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h16
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Outro poema de Ruy Duarte de Carvalho
Os vulcões são animais geológicos.
As tartarugas são geologias animadas.
A unidade de tempo adequada aos vulcões
pode exceder milhares de anos.
A tartaruga excede as unidades.
Aquele dá-lhe a vida a dimensão.
A esta a morte.
Ser tartaruga é ser sem ter defesa:
a vida e a morte
nela
são ambas sem limite.
Um corpo é rijo, quer durar para sempre. E todavia
é exposto a qualquer morte.
Na tartaruga
muito claramente
um ser interno
e um corpo que lhe é estranho.
Por dentro é tudo feito para durar.
Sujeita ao mundo a criatura é exposta
E dir-se-ia que não é assim:
a casa, a protecção
a carapaça, a pedra.
Nos mares do sul a tartaruga vem
todos os anos desovar às praias.
Os habitantes, que são homens nus,
herdaram disso uma perfeita ideia.
Por isso esperam, sentados nos ciclos,
que a tartaruga os venha confirmar.
Basta cumprir depois uma agressão sem história.
(de Exercícios de crueldade – 1978)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h20
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da série Uma canção só, por Franklin Alves
Algo que perturba, ressoa. Talvez uma arte poética. Uma canção só. Uma página que sempre lemos, a que sempre voltamos. Uma página riscada, sublinhada. A página da semana é a de número 33 do livro Cinco ensaios sobre poesia de Mário Faustino, edição de 1964, comprada num sebo por apenas três reais, das Edições GRD. Nesta página lemos:
“Vejamos: a poesia é instrumento de realização existencial do próprio poeta, que, através dela se organiza, se afirma e se harmoniza com o universo; a poesia age sobre o leitor ou ouvinte, individualmente considerado, ensinando-o (comunicando-lhe a experiência do poeta), deleitando-o (comunicando-lhe a satisfação de permanecer vivo a alegria imanente de toda coisa bela) e comovendo-o (comunicando-lhe o sentimento da importância de viver, e provocando-lhe aquela catarse característica de quem experimenta uma obra-prima). A poesia age sobre a sociedade na qual se manifesta, testemunhando e criticando (no sentido profundo) uma parte da humanidade ou toda a humanidade de uma certa época, estimulando e provocando essa humanidade a transformar-se, criando utopias e alimentando ideologias e, finalmente, tornando sua língua mais apta e por isso mais bela".
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Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h19
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Zunái já está no ar
ZUNÁI, Revista de Poesia e Debates, publica em sua sexta edição uma entrevista com o poeta peruano Reynaldo Jiménez, um dos expoentes do neobarroco na América Latina, e uma pequena mostra de sua poesia, com traduções de Claudio Daniel. A revista, que incentiva o diálogo entre os autores de língua espanhola e portuguesa, apresenta também poemas do uruguaio Victor Sosa, do chileno Raul Zurita, do mexicano Antonio Ochoa e de brasileiros como Manoel de Barros, Torquato Neto e Antônio Moura. No link de matérias especiais, Zunái traz um instigante ensaio de Rodrigo Garcia Lopes sobre a crítica literária, e na página dedicada aos debates, reúne seis poetas para a discussão do conceito de "angústia da influência" de Harold Bloom. No campo da tradução criativa, a revista faz uma pequena viagem pelo espaço-tempo, trazendo poemas de Matsuo Bashô, Giuseppe Ungaretti, Archibald Macleish, Robert Creeley, David Huerta e Marianne Moore. Em Galeria, o destaque é para o artista plástico cubano Juan Gualberto Ibáñez.
ZUNÁI, Revista de Poesia e Debates (http://www.revistazunai.com.br)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h33
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