pesa-nervos


Burt Bacharach 1

 

Close to you é quando, apesar de tudo, está-se longe. A melodia e não a letra lembrava o que eu tinha para te dizer e nunca dizia. Seja pela eterna falta de ocasião, seja pelo frio na barriga do início. Depois, vi que eram apenas os metais – que o Burt Bacharach faz com que apareçam só de vez em quando – , e não a melodia inteira, tudo que eu podia ter dito naquela época. Anos depois, Close to you passou a ser a forma com que você, aos domingos, se despedia de sua mãe, depois do almoço, e finalmente íamos para casa juntos. Era quando nossa semana começava. Distância. Hoje, presto mais atenção às breves notas de piano no fim da música. Junto com o barulho da chuva – os pingos contra o vidro da janela –, elas me devolvem por certo tempo o sentido decisivo das coisas. They long to be.

 

 

 

Gomes Gandolfi é mineiro de Teófilo Otoni.

O texto acima integra o livro inédito Para oito cavalos ou quarenta pessoas.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h08
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Dalton Trevisan

 

Do novo livro de Dalton Trevisan, Rita Ritinha Ritona, recém-publicado, selecionamos um trecho do conto O mestre e a aluna, que trata da relação entre um orientador e sua orientanda, aliás, uma bela relação. Saboreiem e comprem o livro:

 

“Veja, ó puto: o Monte Sinai da revelação e o seu duplo. Rodeia a língua babosa no meu mamilo duro. Primeiro um, depois outro. Bacorinho mamando, suga o leite mais doce. E de súbito abocanha. Todo o peitinho na sua boca escancarada. Com a mão direita titila o segundo biquinho. Perna já não tenho, o que me sustenta de pé? Só quero ser lambida. Toda lambida. Ai, minha calcinha orvalhada!”

“O mestre corre o fecho da calça. Presto exibe o punhal róseo de mel. Desfraldado, em riste. A durindana em brasa viva tinindo à cata de sua bainha. Olho estupefata e aturdida, quem sou eu? Qual o meu nome? O que estou fazendo?”.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h30
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         Poemas de Sebastião Edson Macedo 

 

no jirau

saúde de eva
temperando gomoso

o pudor dos peitos
mas os pés
                    nus
 

 

na canoa

assento sombra
as coxas de madeira

pálio bento banzo

a reza dos remos
candeia guia
                        os anzóis

 

 

 

 

sebastião edson macedo, piauiense de floriano, é autor do livro cego puro sol de 2004 (ufrj), artista plástico bissexto e editor-assistente do azougue editorial



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h18
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Charles Baudelaire, As Janelas

 

Aquele que olha, através de uma janela aberta, jamais vê tantas coisas como quem olha para uma janela fechada. Nada existe mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, que uma janela iluminada por uma lamparina. O que se pode ver ao sol nunca é tão interessante como o que acontece por trás de uma vidraça. Naquele quartinho negro ou luminoso a vida palpita, a vida sonha, a vida sofre.

            Para além das ondas de telhados, diviso uma mulher já madura, enrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai de casa. Pela sua fisionomia, pelas suas vestes, por um gesto seu, por um quase-nada, reconstituí a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda, que às vezes conto a mim próprio, a chorar.

            Se fosse um pobre velho, eu lhe haveria reconstituído a história com a mesma facilidade.

            E vou-me deitar, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outras criaturas.

            Haveis de perguntar-me, agora: - “Estás certo de que essa história seja verdadeira?” Que importa o que venha a ser a realidade colocada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou, e o que sou?

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h20
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Poema inédito de Donizete Galvão

 

A preparação do próximo dia

 

 

Para Marcelo Diniz

 

 

O próximo dia,

ainda que não esteja pronto,

já lateja nas têmporas

depois do vinho de domingo.

Sua saturação de ruídos

antecipa-se naquelas vozes

que vazam das tvs dos vizinhos.

Mesmo que seu nódulo

de sólida amargura

ainda não esteja concluído,

o ganir dos cães na noite

anuncia suas dilatações.

Prova que, embora indesejada,

a segunda-feira  virá

cegar-nos como havia prometido.

 

Donizete Galvão é poeta. Nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, Brasil, em 1955. Publicou cinco livros de poesia: Azul navalha (1988), As faces do rio (19 91), Do silêncio da pedra (1996) A carne e o tempo (1997) e Ruminações (1999).

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h09
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Poema de Marcelo Diniz

 

Urca imensa 1

                            

                               para Armando Freitas Filho

 

 

Nunca apaziguada – flâmula ou

flama que palma de mão alguma aplainasse –

como não se arrebenta de vez

a paisagem – se feita de fúria e fascínio,

se composta pelos olhos de um corpo

que não a comporta e mergulha – como nunca

se desfez de vez este susto, como ainda

não se livrou de mim, este fausto

de rocha e mar, farto à retina fátua,

deslimite de luz – aqui para sempre,

um milagre, meus restos,

supondo alguns que esperasse de vez,

que desistisse, transe abduzido, ruína

incrustrada, perfil irreversível – a paisagem eterna

adernando no tempo,

Urca imensa – nunca a paz.

 

 

 

Marcelo Diniz, Niterói, é autor de Trecho (Aeroplano, 2002) e Cosmologia (7letras, 2004). O poema acima é inédito.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h09
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A música de Wim Mertens, o som do desespero

 

Quando você estiver doendo não coloque Wim Mertens na vitrola ou no cd do computador ou ainda na aparelhagem que tiver em casa. É que o som deste belga pode causar o maior dano a sua saúde mental. Não se trata de barulheira. Não se trata de problema de surdez. Não é nada disso que você está pensando agora. Trata-se de música triste. Uma música que beira a clássica e já serviu de trilha para alguns filmes fúnebres. Se você achava que Janis Joplin era triste, era. Nem nenhum punk rock pode deixar alguém num estado de depressão tão profunda quando Mertens. Ele toca um piano muitas vezes acompanhado de um sintetizador e uma soprano que não chega a ser uma Yma Sumac, mas alcança notas altíssimas e belas. Sem dúvida que para dias de desespero não é muito aconselhável – também não é apropriado ao distúrbio bipolar de humor. É perigoso ouvir o som do desespero.

 

Por outro lado, em dias quentes de verão enquanto a turma se acotovela (ouvindo mediocridades de todos os tipos e tamanhos) existe o desprazer do prazer de saber, com perdão da grande cacofonia, que ainda há música boa na face do globo terrestre. Nem que seja vindo da Bélgica. Nem que seja vinda de apenas um instrumento, como muitas vezes de um piano. Um piano belo e triste que ecoa no vazio e no interior, retinindo no âmago como se fosse o antídoto, a facilidade.

 

Claro que o contato com as verdades ou com uma música de qualidade potencializadora é uma experiência. Sendo assim: nunca se volta o mesmo depois de ter escutado algo que é arte em dias que enfadam de tristeza – só que uma tristeza infértil e que constata e pergunta: onde estão músicos como Mertens? Onde mora a música contemporânea? O que estão fazendo com os nossos ouvidos?

 

Rodrigo de Souza Leão

Site: www.wimmertens.be/web/wmertens



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h47
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