
Burt Bacharach n°2
Quando fiz Do you know the way to San Jose, preparei algumas variações que, não sei porque razão, acabaram ficando de fora da versão final, gravada em 1968 por Dianne Warwick. A mais importante delas, com certeza, era uma quebra de andamento imperceptível, mais ou menos na metade da música, simbolizada sobretudo por uma breve mudança de nota em apenas um dos cinco trompetes que, naquele instante, compunham a linha melódica. Isso, apesar de breve, sempre me remetia, por um capricho do tempo, a quando meu pai me levava num bar a meio quilômetro de nossa casa. As notas de um piano que eu nunca mais ouviria. Agora, cento e nove partituras depois, toda vez que me lembro de Do you Know the way to San Jose, penso logo no que não está mais. Meu pai – o sorriso como o de um pai – levando-me ao banheiro do bar. Eu era tão pequeno que nem ir ao banheiro sozinho eu ia.
Gomes Gandolfi
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h19
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Poema de Eduardo Jorge
Shavasan [zero, majestade]
meu cavalo de tróia, meu cadáver.
∞.
da língua bífida de uma esfinge, uma promessa tatuada em hieróglifo. em plena leitura, a inquietação por conta de um brilho áureo. sentia-se lótus na lama ao conseguir o mapa, a cartografia do sumir: a condição, desfazer-se do seu corpo, cultivar as labaredas pelo propósito da ardência: decifra a mensagem e devora a grande ordem numérica: miríades em átimo.
0.
no círculo, situava-se no auge, em dança com o azar. o rio brilhante, o sol pessoal. do quarto pouco iluminado agora, reescrevia os antepassados e criava inimigos, granava-os para servir cinzas aos totens encapuzados. desapareceu em ano perdido junto com mapas, papiros, tomos, riquezas: passagem palimpsesto, destino zero:
as alucinações de um gordo nu, predizendo seu
reino, retirado por guardas de um cortejo
fúnebre, ele: sou eu, sou eu.
Poema de Espaçaria, livro inédito de Eduardo Jorge.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h50
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Lista 1
As listas despertam sentimentos diversos. A partir de hoje pesa-nervos expõem as suas. A primeira é sobre onze músicas compostas para uma terça-feira. O critério, por si só, é destituído de pretensão. A enumeração, como não poderia deixar de ser, importa muito pouco. E as ausências acabam sendo mais significativas que as próprias presenças.
1) “The only living boy in New York” Simon and Garfunkel
2) “Se acaso você chegasse” Elza Soares
3) “Nocturne Op.37 n°1 in G major” Chopin
4) “Tell me why” Neil Young
5) “Pedacito de papel” Eliades Ochoa y el Cuarteto Patria
6) “Without her” Harry Nilsson
7) “See my friends” The Kinks
8) “Se” Tom Zé
9) “Almost blue” Elvis Costello
10) “Cavalgada” Roberto Carlos
Leonardo Gandolfi ouvindo
“Wouldn’t be nice”, The Beach Boys
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h14
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