pesa-nervos


Ensaio sem palavras por Francis Bacon (Dublín, 1909 - Madrid, 1992).

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h22
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Haym Gúri recriado por Haroldo de Campos

 

Tenho parentes

 

Tenho parentes

corações de carvão dentes de prata

enfiados em capotes

fumando cigarros sem bandeirolas

convivas não convidados

numa cidade de neve

 

Parentes próximos distantes

mandíbulas de platina

pés de fogo

mãos de água

fitando-me horas a fio

olhos de cianureto

parentes aristocráticos

de enorme memória abnorme:

rememoram-me um livro onde um rei

outrora em Jerusalém

de costas para quem olha

chora

até o anoitecer

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h42
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Reynaldo Jiménez por Claudio Daniel

 

De Improviso

 

Salta, de súbito, a garra de ar

e faz do leitor aliado do leopardo.

Nas facetas diamantinas onde canta

outra luz, que não é memória, mas vê

 

que o olhar reconhece, apenas treme:

remontando às origens ressurge alerta

o músico instrumento do destino,

chamado tempo, no olhar do poeta.

 

Aqui abrem-se mais, os espaços. Acontece

o que ninguém poderia recordar ou ter

tramado. O bosque de símbolos, sim,

 

e juntos a pira tântrica e o ascético

deserto que dá para o rio. Também o pátio

da mandala, o templo, a rocha, o eco.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h57
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De Improviso

 

Salta, en un santiamén, la garra de aire / y hace del lector aliado del leopardo. / En las facetas diamantinas donde canta / otra luz, que no es memoria, sino mira // que la mirada reconoce, apenas tiembla: / remontando a los orígenes resurge alerta / el músico instrumento del destino, / llamado tiempo, en la mirada del poeta. //Aquí ábrense más, los espacios. Sucede / lo que nadie podría recordar o haber / tramado. El bosque de símbolos, sí, // y juntos la pira tántrica y el ascético / desierto que al río da. También el patio / del mandala, el templo, la roca, el eco.

 

 

Claudio Daniel traduziu muitos poetas latino-americanos. Grande parte deles está na antologia “Jardim de camaleões”, editada recentemente pela Iluminuras.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h55
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Salvador Novo recriado por Glauco Mattoso

 

Soneto Impossibilitado

Se tempo me sobrasse, escreveria
memórias para em livro se reler,
retratos dos caciques no poder,
artistas, medalhões da poesia.

Biógrafo do século e do dia,
que em páginas infladas de prazer
gravasse o que ninguém ousa dizer:
dum tira ou dum ladrão a fantasia.

Porém não pode ser, porque o bom senso
censura a vida dupla em que me escondo
e as coisas no lugar ponho e repenso.

De dia por meus hábitos respondo.
Na noite clamorosa, já não venço,
e à sede dum soldado vou-me expondo


Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h17
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Original de Salvador Novo

 

Si yo tuviera tiempo, escribiría / mis memorias en libros minuciosos; / retratos de políticos famosos, / gente encumbrada, sabia y de valía. //¡Un Proust que vive en México! Y haría / por sus hojas pasar los deliciosos / y prohibidos idilios silenciosos / de un chofer, de un ladrón, de un policía. // Pero no puede ser, porque juiciosa- / mente pasa la doble vida mía // en su sitio poniendo cada cosa. // Que los sabios disponen de mi día, / y me aguarda en la noche clamorosa / la renovada sed de un policía.

 

 

Glauco Mattoso já traduziu o argentino Jorge Luis Borges, o cubano Severo Sarduy e o mexicano Salvador Novo. É também traduzido em diversos países.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h15
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Gertrude Stein por Virna Teixeira

Eu amo meu amor com um v

Porquê é assim

Eu amo meu amor com um b

Porquê eu sou além disso

Um rei

Eu amo meu amor com um a

Porquê ela é uma rainha

Eu amo meu amor e um a é o melhor deles

Pense bem e seja um rei

Pense mais e pense outra vez

Eu amo meu amor com vestido e chapéu

Eu amo meu amor e não com isto ou aquilo

Eu amo meu amor com um y porquê ela é minha noiva

Eu a amo com um d porquê ela é meu amor além disso

Obrigado por estar lá

Ninguém tem que se importar

Obrigado por estar aqui

Porquê você não está lá

 

E com e sem mim o que é e sem ela ela pode estar atrasada e então e como e tudo em volta nós pensamos e descobrimos que é tempo de chorar ela e eu.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h14
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I love my love with a v / Because it is like that / I love my love with a b / Because I am beside that / A king. / I love my love with an a / Because she is a queen / I love my love and an a is the best of them / Think well and be a king, / Think more and think again / I love my love with a dress and a hat / I love my love and not with this or with that / I love my love with a y because she is my bride / I love her with a d because she is my love beside / Thank you for being there / Nobody has to care / Thank you for being here / Because you are not there. / And with and without me which is and without she she can be late and then and how / and all around we think and found that it is time to cry she and I.

 

 

Virna Teixeira já traduziu muitos poetas escoceses contemporâneos, Robert Creeley, Delmore Schwartz, Edna ST Vincent Millay e outros. Seu novo livro, Distância, está no prelo.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h12
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Charles Bukowski por Fernando Koproski

 

O milagre

 

trabalhar com uma forma de arte

não significa

deitar e rolar como uma solitária

de barriga cheia,

tampouco justifica grandeza

ou ganância, em momento algum

seriedade, mas acho

que ela chama os melhores

em sua melhor fase,

e quando eles morrem

e algo mais não,

presenciamos o milagre da imortalidade:

homens vêm como homens,

partem como deuses –

deuses que nós sabíamos aqui,

deuses que enfim nos fazem continuar

quando tudo o mais dizia parar.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h39
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The miracle

 

to work with an art form / does not mean to / screw off like a tapeworm / with his belly full, / nor does it justify grandeur / or greed, nor at all times / seriousness, but I would guess / that it calls upon the best men / at their best times, / and when they die / and something else does not, / we have seen the miracle of immortality: / men arrived as men, / departed as gods – gods we knew were here, / gods that now let us go on / when all else says stop.

 

 

Fernando Koproski é poeta e tradutor. Recentemente publicou, pela Kafka - Edições Baratas, a mini-antologia “A saideira e mais uma - poemas do velho Bukowski”.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h37
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Pesa-Nervos: Especial Tradução

por Franklin Alves, Rodrigo de Souza Leão e Leonardo Gandolfi

 

Pesa-Nervos completa um mês. Nasceu sob o signo de Artaud, no dia de São Jorge. E dedica esta semana à tradução: Bukowski, Gertrude Stein, Salvador Novo, Reynaldo Jiménez e outros serão os poetas traduzidos. Não daremos, por causa do espaço reduzido de cada postagem, informações sobre os estes poetas traduzidos – nada que o Google não resolva. Mais do que uma festa de aniversário, este especial é uma homenagem enviesada a Haroldo de Campos. A imagem acima é do “padroeiro” dos tradutores, São Jerônimo, na paleta de Caravaggio. E a citação, de Walter Benjamin no texto A tarefa do tradutor: “Da mesma maneira que os fragmentos de uma ânfora, para que se possa reconstituir o todo, devem combinar uns com os outros nos mínimos detalhes, apesar de não precisarem ser iguais, a tradução, em lugar de se fazer semelhante ao sentido do original, deve, de maneira amorosa e detalhada, passar para sua própria língua o modo de significar do original; assim como os pedaços partidos são reconhecíveis como fragmentos de uma mesma ânfora, o original e a tradução devem ser identificados como fragmentos de uma linguagem maior”.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 12h18
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