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Um ensaio sem palavras por Andy Warhol (1928-1987)

Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h28
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AINDA BEM
Hoje em dia, quando alguém está doente, a família chama a polícia.
A polícia vem e bate um papo com o cara. Se for preciso, colocam a camisa de força.
Eu não tinha como resistir: eram três tiras mais fortes do que eu.
Eles me levaram junto com o meu irmão. Acharam que eu não tinha nada, mas meu pai sentia um medo danado que eu fizesse alguma loucura.
Mas eu era um perigo só para mim mesmo.
Do meu começo podia sair o fim, mas eu não quero rimar pobre com nobre em versos de impacto, só quero um pacto entre mim e você.
Eu jamais poderia dizer que só faria mal a uma mosca. Eram centenas e centenas delas, e matei algumas por prazer.
(do livro ainda inédito Cataclismo, de Rodrigo de Souza Leão)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h13
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Poema inédito de Márcio Davie Claudino da Cruz
ENCONTRO COM A MONJA
A monja do jardim de Salé jura que pensa em mim. A única vez que a vi, sentada no dorso do tigre branco, fosforesceu a tarde com as pérolas do pescoço.
Ainda vejo a sua fronte coroada de diademas de sereno, muito mais delicados que a luz pequena do vaso tolteca.
Ainda vejo o ermo em que ela andejava, acompanhada pela falcoaria, diziam que, às vezes, entontecida de saquê.
Ainda vejo a sua fronte celestina (porque o céu a coroava) e nos falávamos em copta, sânscrito, e a monja ainda jura que não me esquece...
Porque dos olhos verdes deu-me a beber em seu céramo, enquanto bebia, ela mesma, dos meus odres de vinho casto.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 21h44
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CAIXA-PRETA
Enterrada aqui, como oferta deste chão, uma caixa-preta. Antes, esta mesma caixa, cubo sem erros, existia aos nossos olhos, o que não existia era o objeto de grande importância, mas de pequeno valor que ela continha, não nos via. Enterrada, perdemos a caixa e o objeto velado. Não somos mais vistos por ela nem por seu ventre prenhe de segredo. Porém, temos a memória: relume que encerra uma luz capaz de descobrir caixas-pretas, corpos e lâminas cegas de terra. Obra desaparecida. Assim, ao dobrarmos cada esquina, desta ou de qualquer cidade, sabemos que, o que ficou ainda existe, o que não vemos nem nos olha é uma grande tela cheia de detalhes.
(do livro inédito Céu vermelho, de Franklin Alves)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h12
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Burt Bacharach n°3
Da última vez que estive aqui, não havia esta ardósia no chão nem esta luz fluorescente entre a cozinha e o quintal. Antes, uma planta – não me lembro qual – enfeitava aquele canto da casa. E os vizinhos ali do lado sempre deixavam a bola cair aqui. Três, quatro ou cinco vezes. Nunca devolvi uma sequer. Sequer também meu pai deixava que a cal do muro perdesse o branco como agora. Agora é também quando encontro o dia da primeira vez que te vi. Os cadarços desamarrados e o muro ainda branco. Foi quando acreditei sem poréns nem entretantos nas promessas que você não tinha me feito. O dia da primeira vez que te vi não caiu bola alguma aqui e uma planta – não me lembro qual – ainda enfeitava aquele canto da casa. Os mesmos cadarços desamarrados, corri para o quarto. Liguei a vitrola, baixinho escutei trains & boats & planes. Mesmo que não houvesse ardósia no chão nem luz florescente entre a cozinha e o quintal – e o tempo fosse apenas a palavra tempo –, eu, mais que o Burt Bacharach, era o autor daquela música. Não sabia que tudo acontecia sempre pela última vez.
Gomes Gandolfi
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h03
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BARATA
Seminuas vendem sabonetes e o mar azul-da-prússia de paisagens recortadas de cartão-postal. Movimentos sincopados de ancas revelam saliências epidérmicas ao som da música melíflua de oboés. Jatos d’água escorrem pela concha do umbigo sob o céu cocainado, longe de estrias e da micose que avança nos pés. O verde em alta definição da folhagem oculta o sulco espesso da cavidade e atrai suspiros plásticos, romanescos, fluindo como sangue menstrual. Súbito, assoma a logomarca com a inocência animal de uma máquina de calcular. Iates e sol jamaicano anunciam o novo capítulo da novela. Seminuas têm medo de barata.
(Do livro Figuras Metálicas, de Claudio Daniel, editora Perspectiva, 2005)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h15
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