pesa-nervos


Tristeza

 

Ela desce os degraus estranhos e chega à sala estranha onde todas as portas estão trancadas e todas as janelas estão fechadas. Gira um ferrolho, sai, senta-se no chão com o corpo apoiado numa das colunas da varanda. É tarde, mas as nuvens clareiam o céu noturno e deixam tudo pálido e opaco. O céu é imenso e as mangueiras são negras. Chove tão fino que os pingos sobre seus pés nus parecem suaves picadas de agulhas. Um risco alaranjado corre no céu e explode em mil centelhas, sem fazer ruído.

 

Em noites assim, até os fogos de artifício são silenciosos.

 

 

Adriana Lisboa

(do livro Caligrafias, editora rocco)



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h05
[   ] [ envie esta mensagem ]




Poetas de Israel – Chin Chalom

 

Dedicação

 

Para que os versos do meu canto fossem construídos esplendorosamente,

destruí minha casa, pedra por pedra.

 

Para que sua coroa irradiasse cores abundantes,

misturei meu sangue às suas cores.

 

Para que fosse para mim a única coisa do mundo,

destruí minha felicidade com as próprias mãos.

 

Para que fosse para mim pai e mãe, mulher e filho,

fiquei sozinho e sem ninguém.

 

Para que pudesse elevar, alto e alado,

arremessei-me sem piedade.

 

Agora não tenho mais nada debaixo do céu:

levai-o também, pois é vosso.

 

(Ainda do livro Poesia em Israel, com traduções de Cecília Meireles, publicado em 1962. Chin Chalom nasceu em 1905, originário da Polônia, chegou a Israel ainda jovem. É um poeta, nas palavras de Cecília Meireles, “impregnado de inspiração filosófica e mística”). (Franklin Alves)

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 22h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




1.9.66 - de Mara Liz

 

 

Chamei aquele pedaço de carne ruim para admirar minha alfazema completamente em flor. Absorvemos juntos o aroma agradável e prometi presenteá-lo com um punhado para perfumar o baú de roupas velhas da mãe enferma. Em meus dias felizes costumo perder horas espalhando pétalas pelo jardim e correndo atrás de coelhos albinos que depois vêm a entrelaçar meu longo pescoço tal qual uma cenoura amada…

 

Aproveito o seu distanciamento para pegar o ancinho. Testo o gume espetando uma folha seca que se rende às unhas brilhantes e afiadas do instrumento e, caso eu não me controlasse, caía em gostosa gargalhada. Viro a cintura, ele já olha para mim. Encarando-o fixamente, empunho o ancinho em posição de ataque e delicadamente o conduzo em direção aos intestinos. Ouço um guincho seco que meus ouvidos traduzem como um solo de ópera bufa e me entusiasmo ainda mais com o exercício. Reparo que ao puxar o ancinho algo grudento e mal-cheiroso havia se aninhado à travessa dentada - aparelho digestivo, talvez? -, e dou outra estocada, agora um pouco mais acima da primeira. Então, como uma seqüência furiosa de peitorais, vou afundando o ancinho cada vez mais confiante no corpo franzino - amanhã darei folga ao meu treinador particular.

 

 

Confira o conto na íntegra em http://www.maraliz.com

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h41
[   ] [ envie esta mensagem ]




Outro poema de Ruy Duarte de Carvalho

 

Parábola do pintor de aguarelas

 

Este de quem estou a falar era um homem pobre que um dia consegui vender algumas (aguarelas). Aproveitou para finalmente comprar papel de muito boa qualidade, e muito. E agora permitia-se rasgar o que fazia, se não lhe agradava, coisa a que não se atrevia quando o papel não prestava. Para comer não dava ainda, nem para exibir riqueza, mas era esse o luxo que ostentava. Morreu na mesma pobre.

 

e a obra que deixou não vale nada.

 

 

(Extraído do livro Ordem de esquecimento, publicado em 1977. Aguarela é forma corrente em Portugal da nossa aquarela. Esperem mais poemas, parábolas e outros trechos de Ruy Duarte de Carvalho).



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 22h00
[   ] [ envie esta mensagem ]




UM AU QUE MIA - de Luci Colin

 

 

 

     Escrevo isto em agosto. Depois do mês de sant’ana antes do mês do rosário. Mês de cachorro espritado. Mês em que se sorri sozinho. Dê-me um motivo que eu rio. Diga-me o vau que atravesso.  Valha-me que vigoro.

     Não permita deus que eu morra.

     Serpentes ditam tentações e eu me encolho nas cobertas. Portas abertas passagens - uma entre tantas. Os vasos continuam segredando águas. Os pássaros vôos. Eu tendo sede eu também. Quem me concede uma maçã macia? Rezo a baal ganesha brama qualquer que um deus pagão dos livros das florestas. E me descubro na cama. Serpente eu, engoliria um boi inteiro nem sendo sagrado nem não podendo. Inválida cornucópia - uma entre qualquer das vãs respostas. Eu que não posso querer água. Eu que um mistério espumante.

     Galgos, absolvidos, são hienas. Fomes, inocentadas, cicatrizes.   

     Penso no que disse o meu cachorro

                   : loucura é uma dentadura sem dentes.

(continua)



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h22
[   ] [ envie esta mensagem ]




                                                       &

 

                                           (BEM-INFORMADO) 

 

este texto é louco. se quiser não leia se puder não leia este texto é um lixo. isto quer dizer que nada informa que nada explica que nada traça que nada insta. quer dizer que esbarra quer dizer que invés de escrita escara. quer dizer que não pretende que fende que freme que escancara. ele simplesmente treme – não é de todo certeza não é assinatura não é registro em cartório nem é farra. é uma dorzinha de dente. mente mente faz trocadilhos ridículos e menores: semente. imanta-se e é subsistente. não é erudito não é gente sequer é um texto decente. é garrancho. é um lixo. este texto está doente. é louco, como se disse. não leia – diz isso no aviso. deixa pra lá. deixa que jaza feito as cinzas que flagre-se inexistente. deixe que enlouqueça. deixe  que apodreça. lixo. não tenha nada a ver com isto. não pretenda querê-lo e nem finja. dê de ombros. vire o rosto. feche este absurdo de livro. não deixe que desabroche o tal sorrisinho insistente quando melhor nos cairia bem melhor o límpido siso. não deixe que insultem nosso silêncio com riso.

                   vai ver que vai um rato nesta receita de saco de gatos.      

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h20
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
  02/04/2006 a 08/04/2006
  26/03/2006 a 01/04/2006
  19/03/2006 a 25/03/2006
  12/03/2006 a 18/03/2006
  05/03/2006 a 11/03/2006
  26/02/2006 a 04/03/2006
  19/02/2006 a 25/02/2006
  12/02/2006 a 18/02/2006
  05/02/2006 a 11/02/2006
  29/01/2006 a 04/02/2006
  22/01/2006 a 28/01/2006
  15/01/2006 a 21/01/2006
  08/01/2006 a 14/01/2006
  01/01/2006 a 07/01/2006
  25/12/2005 a 31/12/2005
  18/12/2005 a 24/12/2005
  11/12/2005 a 17/12/2005
  04/12/2005 a 10/12/2005
  27/11/2005 a 03/12/2005
  20/11/2005 a 26/11/2005
  13/11/2005 a 19/11/2005
  06/11/2005 a 12/11/2005
  30/10/2005 a 05/11/2005
  23/10/2005 a 29/10/2005
  16/10/2005 a 22/10/2005
  09/10/2005 a 15/10/2005
  02/10/2005 a 08/10/2005
  25/09/2005 a 01/10/2005
  18/09/2005 a 24/09/2005
  11/09/2005 a 17/09/2005
  04/09/2005 a 10/09/2005
  28/08/2005 a 03/09/2005
  21/08/2005 a 27/08/2005
  14/08/2005 a 20/08/2005
  07/08/2005 a 13/08/2005
  31/07/2005 a 06/08/2005
  24/07/2005 a 30/07/2005
  17/07/2005 a 23/07/2005
  10/07/2005 a 16/07/2005
  03/07/2005 a 09/07/2005
  26/06/2005 a 02/07/2005
  19/06/2005 a 25/06/2005
  12/06/2005 a 18/06/2005
  05/06/2005 a 11/06/2005
  29/05/2005 a 04/06/2005
  22/05/2005 a 28/05/2005
  15/05/2005 a 21/05/2005
  08/05/2005 a 14/05/2005
  01/05/2005 a 07/05/2005
  24/04/2005 a 30/04/2005
  17/04/2005 a 23/04/2005


Votação
  Dê uma nota para meu blog