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Grafia 1
Água significa ave
se
a sílaba é uma pedra álgida
sobre o equilíbrio dos olhos
se
as palavras são densas de sangue
e despem objectos
se
o tamanho deste vento é um triângulo na água
o tamanho da ave é um rio demorado
onde
as mãos derrubam arestas
a palavra principia
Fiama Hasse Pais Brandão nasceu em 1938, em Lisboa. O poema acima integra seu primeiro livro, Morfismos, de 1961; livro presente na publicação conjunta Poesia 61, marco da dicção poética portuguesa.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 21h00
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itinerários da poesia, 16 e 17 de junho
por vicente araújo
sesc consolação. são paulo. infelizmente vicente não pôde comparecer na quarta, 15 ( fábio weintraub e tarso de melo) nem na oficina poética de sábado, 18 (carlito azevedo), porém soube por colegas que estes dias foram bastante proveitosos. Com mediação de heitor ferraz, os encontros de quinta, 16 (marcos siscar e virna teixeira) e sexta, 17 (manoel ricardo de lima, augusto massi, carlito azevedo), trouxeram os poetas compartilhando seus percursos na vida e nos livros. o quando, o como e o onde das primeiras leituras, das dificuldades de criação, das suas relações com a poesia, e claro, tudo isso perpassado pela leitura dos poemas de cada um. com esta forma de apresentação e temas expostos, o itinerários propiciou uma abertura maior com o público, uma aproximação e cumplicidade sempre bem-vinda, muito bem concebida e realizada. vicente e muitos outros desejam que estes eventos se multipliquem. até aos próximos!
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 20h57
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Eu, que eu possa descansar em paz
Eu, que eu possa descansar em paz Eu, que ainda estou vivo, digo; Que eu possa ter paz no que tenho de vida. Eu quero paz agora mesmo, enquanto ainda estou vivo. Não quero esperar como aquele piedoso que almejava Uma perna do trono de ouro do Paraíso. Quero uma cadeira De quatro pernas, aqui mesmo, uma cadeira simples de madeira. Quero o resto de minha paz agora. Vivi minha vida em guerras de toda espécie: batalhas dentro e fora, Combate cara a cara, a cara sempre a minha mesmo, Minha cara de amante, minha cara de inimigo Guerras com velhas armas paus e pedras, machado enferrujado, palavras, Rasgão de faca cega, amor e ódio, E guerra com armas de último forno metralha, míssil, palavras, minas terrestres explodindo, amor e ódio. Não quero cumprir a profecia de meus pais De que vida é guerra Eu quero paz com todo meu corpo e em toda minha alma. Descansem-me em paz.
de Yehuda Amichai (outro poeta de Israel, agora em tradução de Millôr Fernandes)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 21h00
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lançamento de figuras metálicas, de claudio daniel
por vicente araújo
casa das rosas, são paulo. vicente compareceu ao local estudando o silêncio violento das artérias. certa ansiedade indisfarçável por estar entre tantos, como claudio daniel, glauco mattoso, frederico barbosa, élson fróes, ademir assunção e muitos mais. logo um inevitável susto metálico atravessou seus olhos ao se depararem com as tão pressentidas páginas numa dança bela, furiosa, insubmissa. e aquelas figuras tatuadas já na orquestra das retinas como punhais. ademais saltaram luzes labirínticas da música dos vinhos, arabescos de jardins líquidos e agora o incontornável embaraço ao se apresentar ao próprio claudio. dele, assinatura, voz e leveza. bom tê-lo conhecido. vicente não tardou, foi recolher-se. a noite o abraçou plena de betumes límpidos e o mistério com suas cores de imagem nenhuma, este sorriso.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 20h56
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da série Uma canção só por Franklin Alves
Talvez uma canção, talvez uma coincidência, algo para ficar preocupado: dos últimos livros que comprei, emprestei ou ganhei, quase todos têm a capa preta, a saber: Cara e coroa, carinho e carão (Glauco Mattoso), Filosofia da caixa preta (Vilém Flusser), A rosa das línguas (Michel Deguy), Sobre fotografia (Susan Sontag), Figuras Metálicas (Claudio Daniel), O livro dos seres imaginários (Borges) e Memória do Brasil (Evgen Bavcar). Do livro de Bavcar, seleciono o seguinte trecho:
“Por fracas que sejam, as imagens de sonho são sempre a expressão de uma natureza outra que, à banal transparência do cotidiano, opõe as frágeis visões esclarecidas do interior, ou seja, por si mesmas. Pode-se, pela mesma lógica que fazia Plotino dizer que o olho humano não poderia perceber o sol se ele próprio não tivesse algo de solar, afirmar que o dia que nos ofusca não nos daria a menor imagem se nosso olho não fosse preparado pelos sonhos noturnos. E, se às vezes somos obrigados a observar o mundo de olhos fechados, é sobretudo para conservar o caráter frágil dos sonhos que nos levam aos espelhos do invisível”.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h49
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