pesa-nervos


Miles Davis, lado b – de Franklin Alves

 

 

Um tipo de azul, vermelho

esta música, verso cego

 

Miles Davis e seu livro nenhum,

que ninguém escuta

 

Nada adiantará, é hora:

gravata lírica, traça

arguta, mesa anatômica

 

alguém perde o fôlego

 

tocando a música de erros

necessários

 

 

[Este poema faz parte da série Um tipo de azul vermelho, do meu ainda inédito Céu vermelho. Foi publicado, junto com Monk solo, no último número da revista Inimigo Rumor.]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 22h31
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Entrevista com Alberto Pucheu – por Rodrigo de Souza Leão

 

Rodrigo: Em Ecometria do silêncio há epígrafes de Fernando Pessoa e poemas homenagens a outros escritores. Como você lida com as influências poéticas? É antropofágico?

 

Pucheu: Há em meus escritos uma forte base intertextual, como uma vez escreveu Marco Lucchesi. Algumas palavras de alguns escritores atravessam as minhas. Thomas Mann, Fernando Ferreira de Loanda, Maiakovski, Juan Luis Panero, Dogen Zengi, José Severiano de Rezende, Parmênides, Machado de Assis e Aristóteles quiseram caminhar pelas páginas desse último livro. Sou levado também a exercer diálogos com outros poemas ou livros ou quadros. Necessito de frases alheias, de obras alheias, como de comida... e elas vão deixando de ser alheias... vão sendo minhas... e eu vou deixando de me ser... vou sendo elas... as frases ganham o cheiro de minha carne, o percurso de meus intestinos e o pensamento que me quer escrever... eu apreendo cheiros alheios, não experimentados até então. São como membros que me ampliam para o mundo, as frases. Utilizo os outros apenas quando não podem deixar de ser um terceiro entre eles e mim. Criamos juntos um terceiro corpo, em cuja invenção me descubro, mais do que sozinho. Assim, como em Rimbaud, e para sempre: Eu é um outro.

 

[Conferir a entrevista na íntegra no sítio do Balacobaco: http://www.geocities.com/SoHo/Lofts/1418/entrevistas.htm]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h31
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Pelas arestas – de Diana Melo

 

Riu discreto quando percebeu que não conseguia mais tirar sua vista de cima dele. Um simples cubo azul, de tampa removível, quadrado escuro e estúpido esquecido em cima da prateleira do escritório, sacana de tão pretensioso em nem ser tão grande para insinuar guardar coisas. Um par de brincos, dois anéis, algo mais ali não fechava a tampa. E os olhos sem repousarem ou saírem das paredes lisas e iguais. Pura forma sem graça pronta para receber o que fosse pouco menor que seu tamanho. E ele sem conseguir soltá-lo. Só podia estar era pirando. Não combinava com ele. Era homem sensato. Mais gelo que água. Santo que a rezava. Esboço que prédio. A superfície do quadrado.

 

[Este texto está incluído no livro Pelos pontos, organizado por Carlos Augusto de Lima para o Núcleo de literatura do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, no estado do Ceará. Diana Melo edita o blog  http://www.azuclarin.blogger.com.br/].

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 20h11
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Entrevista com Wilson Bueno – por Rodrigo de Souza Leão

 

Rodrigo: Como você vê 18 páginas de Mar Paraguayo (Iluminuras, 1992) ter sido incluídas numa das mais importantes antologias latino-americanas dos últimos tempos que é Medusario (México, Fondo de Cultura Económica), organizada por Roberto Echavarren e José Kozer?

 

Wilson Bueno: É preciso lembrar que lá também estão fragmentos de Galáxias, de Haroldo de Campos, e também fragmentos do Catatau, de Paulo Leminski – igualmente como representantes do Brasil na antologia. Acho que está mais do que na hora de a literatura brasileira, uma das literaturas mais ricas do mundo, ser ao menos conhecida pelos nossos vizinhos de língua hispânica. É incompreensível que não nos conheçam ou nos conheçam muito pouco. E quando travam contato com as nossas coisas, veja-se o exagero e o deslumbre – vão logo nos antologizando de um modo generoso e inteiro, como agora, com Medusario. A se destacar, o grande pequeno ensaio que introduz Mar Paraguayo na antologia, uma visada aguda e inteligente sobre o texto, realizada pelo crítico Roberto Echavarren. Estar ali, ao lado das mais importantes expressões da nova literatura latino-americana, além da honra, tem me dado grandes alegrias.

 

[Conferir a entrevista na íntegra no sítio do Balacobaco: http://www.geocities.com/SoHo/Lofts/1418/entrevistas.htm]

 

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h37
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Há um peso na nitidez da foto

por Júlia Studart

 

Foi a partir de uma matéria que li sobre Richard Serra, um dos grandes escultores hoje, que pensei no quanto e no tanto de peso que pode ter essa narrativa de Cristovão Tezza. Penso nas esculturas desmesuradas de aço, na durabilidade, na oxidação disso, do quanto desaparece, envelhece ou se deteriora com a passagem do tempo — os anos. Mas ainda um peso que não cabe na leveza que traz junto, no equilíbrio, na medida certa, quando parece se retira toda a idéia de pesado, da densidade das peças. E é quando alguma tensão salta do trabalho. E Serra nos conduz, um passeio por dentro, pelos entres das peças que começam a perder do seu peso na proporção que sobem, absolutas. 

 

Também a narrativa de Tezza tem um peso. Um peso de tempo, do que se gasta, de algum cansaço e uma outra inércia. Feito as esculturas de aço de Serra. Mas também uma leveza que salta, da nostalgia, um sentir-se parte “desta gravura antiga, amarela e gasta nas bordas”, da escolha dos enquadramentos, da delicadeza que acompanha toda tentativa de um olhar mais generoso para a cidade, para o outro, para dentro. E então compreender, aqui, que cada vagar pela cidade, essa Curitiba que atravessa toda a narrativa de Tezza, pode ser leveza e peso ao mesmo tempo. Mesmo numa história que se dá em tempo tão curto, um único dia. O que podia ser trivial, no sempre o mesmo discurso amoroso, no dentro da casa, na vizinhança, na rua, no desbotamento das relações; no romance ganha um peso outro pela força do discurso, do texto de fôlego curto, do inusitado, dos encontros e desacertos, de alguma sensualidade, da foto, de um erotismo fascinante. Uma fissura que irrompe, que vem com a solidão ou, mais ainda, com a precisão dela. O que a narrativa parece prescindir, repetindo insistente, “a solidão é a forma discreta do ressentimento”. Personagens que silenciam as aflições, mentem e fingem muito. Mas que também se doem. E há decerto ainda uma dureza quase cortante naquilo que conseguem dizer deles mesmos ou do outro que, de alguma forma, passa pela vida, pelas escolhas. Uma pausa: “Pensou em casa (aquela tensão surda que se arrastava há meses)”.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 13h12
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Cristovão Tezza comemora. De um jeito seu muito discreto, quase silencioso. O Fotógrafo, esse seu último livro, que se passa em Curitiba no tempo das eleições presidenciais de 2002, foi eleito pela Academia Brasileira de Letras o melhor romance publicado no Brasil em 2004. O escritor, que nasceu em Lages, interior de Santa Catarina, e que muito cedo foi morar em Curitiba, cidade de toda sua formação literária, escreveu ainda um livro de contos, A cidade inventada, e publicou mais de dez romances, entre eles Trapo, Juliano Pavollini, Uma noite em Curitiba, A suavidade do vento e Breve espaço entre cor e sombra. Este último ganhou o prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro como melhor romance de 1998.

 

O fotógrafo é um livro grave e delicado ao mesmo tempo. Um peso, uma leveza de texto. Pequenos quadros fotográficos que emolduram e recortam a vida de cinco personagens. Ora em foco ora distorcidos pela lente, maior, que aproxima, afasta, retira, num simples giro da objetiva. Cinco formas de olhar a solidão de nomes Mara, Duarte, Lídia, Íris e O fotógrafo. Este que ganha para fotografar secretamente Íris, uma mulher extremamente desejável por quem ele se apaixona e que faz análise com Mara, freudiana heterodoxa que acredita tudo se reduzir mesmo a sexo. Mara é mulher de Duarte, o professor de Literatura, discreto, por quem Lídia, mulher do fotógrafo, se envolve. Enfim, aqui, há sempre um peso na nitidez da foto, na cena, nesse desvelado do tempo e das relações afetuosas que se quebram, que se questionam, que se morrem. Outra pausa: “Lembrou de Mara, sua mulher, aos 42 anos, e de suas três filhas, não como punição, mas para completar o quadro do que estava acontecendo, naquele exato silêncio: o desejo”.

 

A narrativa tensiona uma e outra idéia de tempo, a exemplo das esculturas de Richard Serra. O tempo que escapa, deforma, desbota, feito fotografia, o instante, as relações de muitos anos, os cansaços todos, as mentiras, e um outro que supõe alguma permanência, no instante fotografado, no jogo claro e escuro revelado, na composição, no recorte de cidade “eternizado” na foto. Como no desejo do fotógrafo: “As coisas devem durar”. Um certo olhar amoroso que insiste submerso no “buraco medieval” onde revela os negativos, revela Íris, nos rolos de filmes, na foto perfeita, “como uma vingança infantil contra o exército digital: esta foto não precisa ser recortada”, apenas o tempo do revelador, o sacudir leve do tanque, a ventilação, a contagem dos minutos, e o que se transforma dentro — os grãos de prata selando, fixando o tempo.

 

Júlia Studart desenvolve pesquisa em Comunicação e Semiótica, PUC-PR. Trabalha com textos e tradução.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 13h11
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