pesa-nervos


No éden – de Claudia Roquette-Pinto

 

peça a ela que se desnude

começa pelos cílios

segue-se ao arame dos

utensílios diários

(insônia alinhavando-se

de tiros,

a infância      seus disfarces)

é preciso

que se arranque toda a face

deixar que os olhos descansem

lado a lado com os sapatos

na camurça oscilante

de um quarto

isso, se quer (sequer desconfia)

tocar o que se fia (um par

de presas, topázios)

entre os vãos das costelas

abra o fecho ela desfecha

no escuro o quadrante onde vaza

a luz e suas arestas

 

[do livro Zona de sombra, de 1997, com segunda edição, a de capa azul, em 2000].



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h51
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O BRANCO – de Rodrigo de Souza Leão

 

Muito marfim. Esporra. Nuvem. Branco sobre branco. Um quadro de Picasso. Neve. Uma tela de computador em branco. Um grão de areia da praia W. Branco sobre branco. A pele caucasiana de virgens francesas. O branco dos olhos. Do dente. Do pâncreas. Da extremidade das unhas. O branco da barriga da baleia. Do urso polar. Branco sobre branco. Açúcar. Cocaína. Mármore. Todo o branco do mundo. Toda população branca. A tecla branca do piano. A teta branca. O branco das rosas. Das tulipas. Da mortalha. Do algodão. O peão do jogo de xadrez. Branco do banco branco. Onde sentada, as ancas brancas expelem cupidos brancos anjos de asas brancas. Da pele branca da cor de santo. O branco das garças. De algumas gaivotas que comem o infinito e mastigam o branco dos cabelos da aurora. O branco das galáxias. O branco que não tem nada a dizer. O branco da memória. O branco da história. O muro branco. O elefante branco. O rinoceronte branco. A cobra branca. Os albinos. O branco das noivas. Das lápides. Do lápis. Do cavalo branco. Do ramster. O álbum branco dos Beatles. O terno branco do pai de santo. Cocada. O branco do luto. Da vaca branca. Da magia. O branco da pelúcia do boneco. Ouro branco. Diamante branco. A casa branca. Branca de neve. O origami branco. O branco dos neurônios. Velas acessas. Cera. Sírios. A guitarra branca de Hendrix. O branco dos médicos. Da enfermeira. Da camisa de força. O branco das bombas nucleares. O cogumelo branco. As espumas das ondas. Milk shake de baunilha. Pão branco. O branco da folha de papel. O branco das zebras negras. O branco do cordão umbilical explode em várias cores. Nasce o negro também. O negro das zebras brancas... Tudo sendo engolido por um buraco negro. Tudo sendo regurgitado. O branco do leite. Do vômito.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h11
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Extravio – de Diego Vinhas

 

                        para Rodrigo Marques

 

mora um rio

atrás da parede

 

e se vencer tijolo e pátina, vier ensinar à carne

a frase oblíqua das águas

 

e se trouxer sua sintaxe,

reescrever (se

músculos entre vírgulas, corpo-caminho,

afogar a palavra crânio) –me

 

e se não

 

e se preferir

       preservar suas curvas

de coisas mais tortas

 

e se sempre à margem

e se líquido e certo

e se for grande a hora

e se for resposta correr

 

atrás da parede

um rio demora.

 

[do livro primeiro as coisas morrem, publicado em 2004 pela 7Letras, na coleção Guizos. Diego Vinhas é um dos editores da revista Gazua].

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h56
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Tisanas, por Ana Hatherly

 

12

Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.

 

229

O auto-retrato. Todos os artistas que fizeram o seu auto-retrato ao longo dos tempos não foi porque se achassem particularmente belos ou interessantes mas porque assim avaliavam o seu grau de passagem. Eu escrevo o meu nome.

 

 

 

Ana Hatherly, poeta portuguesa que teve recentemente uma antologia sua lançada aqui no Brasil pela Escrituras editora; chama-se A idade da escrita (2005).



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h34
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O contrato – de Aglaja Veteranyi

 

Ele a traía sempre às terças-feiras. Ela o traía às quintas.

Certo sábado ele pediu: ponha percevejos no meu arroz.

Ela fez uma comida picante. Acendeu velas azuis. Colocou um tango.

Eles se abraçaram. Sem sentidos.

E aí veio o sangue.

Na sua boca.

Das suas entranhas.

Ela raramente o achou tão sensual.

No domingo ela pediu: espanque-me.

Ele bateu de cinta no seu rosto. Arrancou-lhe um dedo

com o alicate.

Às 10 em ponto eles apagaram as luzes.

Segunda-feira ambos tinham de levantar cedo.

 

[Poema publicado na revista Coyote 11. A tradução é de Fabiana Macchi, que traduziu o livro Por que a criança cozinha na polenta de Aglaja, aliás, o único dela publicado aqui no Brasil. Há também outros poemas de Aglaja na revista Inimigo Rumor 17].

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 09h09
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