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Look back in anger
de Carlos de Oliveira
Podia ser a névoa habitual da noite, os charcos cintilantes, o luar trazido por um golpe de vento às trincheiras da Flandres, mas não era. Quando acordou mais tarde num hospital da retaguarda, ensinaram-no a respirar de novo. Lentas infiltrações de oxigênio poroso, durante anos e anos, até à imobilidade pulmonar das estátuas.
Hoje, um dos seus filhos sobe ao terraço mais obscuro da cidade em que vive e olha o passado com rancor. O sangue bate, gota a gota, na pedra hereditária dos brônquios e ele sabe que é o mar contra os rochedos, a pulsação difícil das algas ou dos soldados mortos nessa noite da Flandres.
As imagens latentes, penso eu, porque sou eu o homem na armadilha do terraço difuso, entrego-as às palavras como se entrega um filme aos sais de prata. Quer dizer: numa pura suspensão de cristais, revelo a minha vida.
[poema que abre Sobre o lado esquerdo, livro de 1968]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h14
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O porco-espinho
(o dia em que Soledad partiu pra o Peru)
de Antonio Cisneros
Foi um avião holandês de meio-dia.
Acompanhamos seu vôo até que se perdeu
como uma flecha contra o sol.
Essa noite vimos o porco-espinho.
Um porco-espinho nas colinas de Budapeste.
Pequeno e peludo, olhava-nos por trás de um loureiro rosa.
O primeiro porco-espinho de nossas vidas.
Seu pequeno focinho doce e melado
era o rosto final de Soledad.
Olhava-nos com os olhos de boliche que olhavam
as nuvens do oceano em um avião holandês.
E foi tudo.
Depois fugiu entre o mato alto.
Assustado.
[do livro Sete pragas depois, traduzido por Carlito Azevedo e Aníbal Cristobo, publicado na coleção Ás de colete, das editoras 7Letras e Cosac & Naify, em 2003].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h25
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MUDARAM AS ESTAÇÕES, MAS NADA MUDOU – por Rodrigo de Souza Leão.
Pelo correr da carruagem não vamos ver nada de novo no FESTIVAL DE MÚSICA DA REDE CULTURA. É que até agora – passadas duas das quatro edições do programa – não teve nada, a não ser a bela organização e cobertura do evento, que me chamasse atenção. Nada mesmo. Parece que os tempos não são muito bons para música ou as pessoas que escolheram as canções preferiram fazer uma média com alguns ritmos pouco contemplados pela mídia. Gostaram da média e mídia? Assim tem um pouco de tudo, o que agrada a gregos, troianos, mas a mim não. Claro que não se pode dizer que os músicos não têm qualidade e a música idem, mas é tudo um grande tédio. Mesmice. Música chata. Arranjada de forma chata. Cantada de forma chata. Um desfile do óbvio. Até as bandas escolhidas que fazem fusão de ritmos, o fazem de uma maneira já feita. Imitam. Será que não há nada de novo? Será que tudo é tão chato assim? Por enquanto ninguém merece o prêmio de melhor. Todos são perdedores. E olha, posso falar, pois não mandei nenhuma das minhas músicas para participar do festival e não fui rejeitado pela comissão que escolheu as canções. Vamos continuar ouvindo Chitão e Xororó por muito tempo ainda. Triste, como é triste a realidade. Hoje é quarta. Vai ter outra eliminatória. Veja mais no sítio http://www.tvcultura.com.br/
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h13
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pernambucano paulistano – de Frederico Barbosa
cada são paulo a que retorno
toca tanto que é ruim
na marginal eu quase choro
só porque me sinto vir
pernambucano paulistano
como tantos por aqui
tenho-a minha toda e tanto
que não a posso possuir
[do livro brasibraseiro, escrito em co-autoria com Antonio Risério, indicado ao prêmio Jabuti este ano].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 20h51
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Teatro ambulante – de Duda Machado
Há três anos, representavam a mesma peça. O sucesso era tão grande e tantos os pedidos vindos de cidades do interior, que resolveram excursionar. Mas as viagens, ao contrário do que esperavam, iam acentuando ainda mais o cansaço e a rotina daquelas representações sempre idênticas. Para aliviar-se, os atores foram aumentando cada vez mais os trechos improvisados até que, pouco a pouco, a história e as personagens começaram a se alterar. Por fim, a peça se transformou. Mas a platéia não dava mostras de reparar naquela completa mudança. Ninguém reclamava e o publico aceitava entusiasmado o outro drama representado e a presença daqueles atores famosos. Estes sentiam-se revigorados e o segredo da metamorfose atuava como um pacto a fortalecer a ligação entre eles.
Uma noite, passado algum tempo, sem que pudessem compreender ou controlar o que acontecia no palco, as palavras e os gestos que executavam começaram a tornar-se alheios, irreconhecíveis. No segundo ato, todo o elenco estava assustado e atordoado. No entanto, no momento de cada réplica ou ação, o pânico desaparecia. Terminado o espetáculo, o publico aplaudiu como o entusiasmo de sempre. Nos camarins, os atores mal conseguiam se entreolhar. Só mais tarde quando jantavam no restaurante do hotel, é que se sentiram capazes de reconhecer com excitação que haviam seguido diálogo por diálogo, cena por cena, a peça original, abandonada tempo atrás.
[do livro Crescente (1977-1990), publicado na coleção Claro enigma, Livraria Duas Cidades, São Paulo].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h04
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