pesa-nervos


 

Paola Gandolfi

Madalenna 2

1996

 

Amor paternal

 

de João Miguel Henriques

 

 

o meu pai pegou-me ao colo

e apertou contra os seus

os meus parcos ossos tenros

(um acto de amor puro)

 

vinte e cinco anos mais tarde

descubro por radiografias

uma ligeira escoliose nas costas

e não pareço importar-me

 

é que a um pai perdoa-se tudo

e esta escoliose minha

não mais é que uma gota

no oceano de um amor paternal

 

 

[do livro O sopro da tartaruga, edição do autor, Portugal: 2005]

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h52
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Digas também

 

de paul celan via flavio r.kothe

 

 

Digas também,

digas no fim,

digas teu dito.

 

Digas –

Mas não distingas o não do sim.

Dá também sentido ao teu dito:

dá-lhe a sombra.

 

Dá-lhe sombra bastante

dá-lhe tanta

quanta vês ao redor repartida entre

meia-noite e meio-dia e meia-noite.

 

Olha em torno:

vê como tudo ressurge –

Na morte! Vivo!

Diz a verdade quem sombras diz.

 

Agora, porém, encolhe-se o lugar onde estás:

Para onde agora, dessombrado, para onde?

Sobe. Tateia em frente.

Tu te tornas mais franzino, irreconhecível, fino!

 

Mais fino: um fio,

em que ele quer descer, o astro:

para em baixo nadar, em baixo,

onde ele se vê cintilar: na ondulação

de palavras peregrinas.

 

Celan, Paul. Poesia. trad. Flávio R. Kothe. Tempo Brasileiro: Rio de janeiro, 1977.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h45
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Isaías, Empédocles, filhos - de  fiama hasse pais brandão 

Quando todos os filhos dizem que um cometa emergirá em janeiro neste país

não só prevêem como lêem. Essa notícia origina a passagem

do astro. O profeta é quem sempre permite

que os actos aconteçam por reconhecimento e que os filhos conduzam

com inteligência os astros. Todos eles sabem os nomes

dos meses como ciência do futuro. Todos imaginam

a cabeleira argêntea com antropomorfia e se regojizam

pelo acesso à próxima idade. Todos assistem à mutação do ano

com maior emoção da que é devida a um número.

Todavia eu sei também que devo gratidão

aos nomes de pitágoras, quando escuto, enumero, oiço filhos num coro

gregoriano, uníssono. Cântico do movimento aparente das vozes no tempo,

isto é, da aparição de vozes perante mim, do meu progresso

até pitágoras, sentindo que para eles, filhos ou profetas,

a emoção desmedida é incomensurável mas finita,

 

porque este poema foi à morte de isaías, empédocles, filhos.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h26
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poema de leonardo gandolfi

 

 

Da tartaruga retirar a tartaruga;

deixá-la ser apenas a não-tartaruga.

Chove. As gotas molhariam o seu casco.

Eis o primeiro ciclo – o da falta.

 

A chuva insiste, toca as telhas de amianto.

A casa está fechada e quem está lá dentro

é a continuação da chuva e do amianto.

Esse, o segundo ciclo – o do gesto.

 

Junto da casa, um jardim. Ainda não.

Quem sabe, quando a chuva parar de insistir,

eu compreenda as regras da perspectiva.

 

O que se retirara retorna. Silêncio.

À tartaruga chega-se por paciência.

Terceiro ciclo – o das coisas repetidas.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h28
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Por leonardo gandolfi

 

Vanessa voltou da França com alguns mimos, entre eles o livro Le seuil Le sable – poésies complètes 1943-1988 do grande Edmond Jabès. Segue um poema:

 

 

L’inhumaine

 

Ses mains de cuir

sont seins d’ourage

dans leur corsage

 

Les plus beaux gestes ont péri

 

Elle griffe oublie

Le sang devenu

mares à fourmis

 

Le regard laisse filtrer le rêve

 

Les arbres portent

leurs filigranes

avec les feuilles

 

Les fleurs en dispensent le prix

Le fruit l’insondable saveur

 

 

[poema que abre o livro L’écorce du monde de 1954]

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h41
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