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Dois fotógrafos, uma questão – por Franklin Alves

 

Evgen Bavcar e Alec Soth são dois fotógrafos que muito me interessam. O primeiro é esloveno, ficou cego aos doze anos de idade. Bavcar fotografa de maneira indireta, com a palavra. Fotografa olhando representações interiores. Uma imagem muito bonita é a de Véronique e seu pato: alguns fios de luz riscam a fotografia, perturbando a ordem da sombra; a mulher está com a cabeça baixa, de olhos fechados, o olho de vidro do pato está aberto, vigilante. Esta e outras imagens devem ser conferidas no seguinte endereço: http://www.zonezero.com/exposiciones/fotografos/bavcar/

Alec Soth é norte-americano. Gosto muito da imagem de uma casa, é a fotografia da casa onde o compositor, também norte-americano, Johnny Cash passou a infância. Nela, observamos a casa, algumas árvores, um descampado, uma pequena antena parabólica e um céu nublado. Enfim, observamos limites. A imagem faz parte de uma série chamada “Sleeping by Mississippi” (Dormindo à beira do Mississippi), trabalho onde o fotógrafo registrou personagens solitários da região em ambientes pobres, paisagens degradadas e nubladas. As imagens de Alec Soth podem ser conferidas neste endereço:

http://www.alecsoth.com/

Qual é a questão que perpassa as experiências destes fotógrafos? Para mim, é a questão do tempo. Do tempo de escuta e retorno em Bavcar. Do tempo do esquecimento em Soth. E ainda a questão da espera, do suspense e da atenção – categorias que hoje são consideradas desviantes e desnecessárias. Espero comentários. 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h30
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imagem de Arnulf Rainer

 

Céu vermelho – de Franklin Alves

 

 

O homem que ia atravessar as caixas, de uma margem a outra, morreu ontem. O outro homem, aquele que ia receber as caixas na margem oposta, desistiu logo após a notícia da morte. Ficamos deste lado com os embrulhos, pensando em abri-los. A dúvida cheia de olhos nos espreitava. Não abrimos. Sob um céu vermelho, meditamos a morte das coisas que elegemos e que estariam, agora, no outro lado. Meditamos o imprevisto das caixas, que não nomeamos acaso, mas uma ordem que regula desde átomos até casos como este.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h14
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As ruas – de Jorge Luis Borges

 

 

As ruas de Buenos Aires

já são minhas entranhas.

Não as ávidas ruas,

incômodas de turba e de agitação,

mas as ruas entediadas do bairro,

quase invisíveis de tão habituais,

enternecidas de penumbra e de ocaso

e aquelas mais longínquas

privadas de árvores piedosas

onde austeras casinhas apenas se aventuram,

abrumadas por imortais distâncias,

a perder-se na profunda visão

de céu e de planura.

São para o solitário uma promessa

porque milhares de almas singulares as povoam,

únicas ante Deus e no tempo

e sem dúvida preciosas.

Para o Oeste, o Norte e o Sul

se desfraldaram  - e são também a pátria - as ruas;

oxalá nos versos que traço

estejam essas bandeiras.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h52
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flores silvestres num vaso – De Rodrigo de Souza Leão

 

tantas flores

que uma só flor

poderia ser

todas as flores

 

poucas cores

que tão raras

as cores poderiam

ser uma cor

 

escolheria três

cores

três cores azuis

e o negro da noite

 

o pote-vaso

de onde brotam

flores e cores

nada mais lápide

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h27
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Margem de Manobra

 

Claudia Roquette-Pinto publicou recentemente o livro Margem de Manobra (Editora Aeroplano). Para quem estiver no Rio de Janeiro, o lançamento é hoje, segunda-feira, dia 29 de agosto, às 20h na livraria Argumento, Rua Dias Ferreira, 417, Leblon. Do livro, selecionamos o seguinte poema:

 

 

Os amantes sob o lírio (Marc Chagall)

 

O casal (dizem) está debaixo de um arranjo.

Mas os lírios e as rosas e as folhas furiosas

se esparramam de tal modo, em tantas direções,

que a explosão vegetal faz pensar num desgoverno

de idéias, de cabelos (um chapéu sem cabimento,

um adereço de carnaval).

Meio oculto pelo arbusto florescente,

o homem mergulha inteiramente na direção do beijo:

olhos velados, braço-antebraço sustentando-lhe o busto,

lábios quase tocando os da mulher reclinada.

Ela, entretanto, com a boca e os olhos abertos,

inclina a cabeça, talvez com o mesmo susto

de um peixe sem ar na superfície da água,

de uma flor voltando o rosto para o sol.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h19
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