pesa-nervos


Nômada ou a lição do deserto – por Franklin Alves

 

Em Nômada, última coletânea de poemas de Rodrigo Garcia Lopes, o leitor encontrará, atualizada, uma questão importante, e complicada, para a poesia: sua relação com a sociedade. Em outras palavras, qual o lugar ocupado pela lírica na sociedade contemporânea, marcada por guerras e pelo “lucrocentrismo”, na expressão certeira de Paulo Leminski. E Rodrigo parece encaminhar uma resposta através das perguntas do poema Rito, que denuncia o tempo acelerado de hoje, sem espaço para reflexões: “O que deu nesse mundo, caduco, / O que ficou do tempo em que viver / Era mais que só mudar de assunto / Era rito, um estado de espírito?”. Pouca coisa ficou, sabemos. Mas é na contramão deste cenário que a poesia funciona como lugar de resistência: “Não é moda: não precisa de marketing / pra dizer a que veio. / Veio, e veio só, na cilada da noite”. Fora dos esquemas do ver e ser visto, a poesia “Precisa dizer. / Como um celofane que se desa- / massa”, enfim dizer fazendo barulho e “Não como certas músicas baratas / baladas que não dizem nada / fazendo companhia para o som do ar- / condicionado”, como lemos em Ars poetica.

[Continua no seguinte endereço: http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=422]

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h06
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O CEGO – de Rilke

[tradução Augusto de Campos]

 

Ele caminha e interrompe a cidade,

que não existe em sua cela escura,

como uma escura rachadura

numa taça atravessa a claridade.

 

Sombras das coisas, como numa folha,

nele se riscam sem que ele as acolha:

só sensações de tato, como sondas,

captam o mundo em diminutas ondas:

 

serenidade; resistência –

como se à espera de escolher alguém, atento,

ele soergue, quase em reverência,

a mão, como num casamento.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h50
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Cotidiano, sintaxe e transcendência, por leonardo gandolfi 

 

(...) a precisão na forma que, por vezes, é torrencial, profusa, mas que, mesmo assim, não abre mão do controle tanto sintático como imagético da subjetividade. A maioria dos poemas é em prosa. No entanto, mais do que poemas em prosa, o que se vê são versos submetidos a uma justificação gráfica na mesma linha. Recurso que questiona e abre, sem grandes crenças, outras possibilidades para o gênero. O início do primeiro poema mostra isso (vide as barras presentes já no próprio livro): “ela dorme/ dança/ nasce. penso que tudo o mais que me acontece é o ping-pong entre testemunhá-la e compreendê-la.” Em prosa ou não, Danilo sabe que o poema é um lugar de releitura do mundo e reordenação dos fatos. É pela e na poesia que se cruzam planos que, noutros lugares, não fariam sentido. Em Hoje outro nome tem a chuva, a linguagem se reconhece enquanto realidade nem autônoma nem dependente, mas crítica e lucidamente subjetiva. Eis o poema:

 

A palavra pessach me lembra pêssego

E da distância entre o desejo e a feira

e do caminho entre a boca e a polpa

e do abandono de tornar-se pêssego

para o deleite disto que devora as consciências

 

 

*

Trecho da resenha para o livro “Hoje outro nome tem a chuva” de Danilo Monteiro.

Todo o texto pode ser lido no Cronópios:

http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=198

 

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h55
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Poema de Iehoasch

 

 

Iang-Se-Fu

 

A rainha Iang-Se-Fu

Possui setenta palácios,

Cem câmaras cada palácio,

Cem janelas cada câmara,

Fortes guardas, escravos gigantes,

Pesadas armaduras, longas lanças,

Ri no espelho Iang-se-fu:

Quem é grande como tu?

 

* * *

 

A rainha Iang-Se-Fu

Vai, à noite, à branca foz,

Fica menor que uma noz,

Arranca uma folhinha verde

Pra dentro dela remar,

 

Toma de capim dois fios,

São remos proporcionais,

Ri-se na água Iang-Se-Fu:

Quem é pequena como tu?

 

 

Tradução do iídiche por Paula Beiguelman

no Livro Quatro mil anos de poesia (Perspectiva, 1962)

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h55
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A rebelião da poesia - por Rodrigo de Souza Leão

 

Rebelião na Zona Fantasma é o nome do primeiro CD de poesia falada de Ademir Assunção. Nada a ver com poemas recitados em fundo musical idílico, com coro de passarinhos. Trata-se de uma rebelião ao som de blues. Algo que pode ter personificação anterior em Jim Morrison e outros, que fizeram a fusão do blues com a poesia. É uma rebelião sob o comando de Ademir e sua poesia escrita com o próprio sangue.

"Homem Só", a peça que abre o CD, é permeada pelo violão de aço de Luiz Waack, que pontua a voz de Ademir. Depois vem "Escrito a Sangue", com um lisérgico solo de guitarra de Waack e coro de Madan, dois músicos de primeira, que acrescentam muito à sonoridade da canção. Então, Ademir interpreta "E Então?". Quando ele, o poeta, pergunta "Você já ficou mudo de medo?", vem um silêncio isomórfico, proposital, de quem não responde a pergunta e se paralisa, congelado com a possibilidade. Eu gelei. Já em "Nada Demais", o bardo paulista flerta com o canto e recebe a ajuda de Edvaldo Santana, num tema jazzblueseiro de excelente qualidade. O momento calmo da rebelião é o que vem a seguir, com "Noite & Dia" e "Câmera Indiscreta". O primeiro, cantado por Madan e o segundo, por Zeca Baleiro. Em ambos Ademir faz intervenções, dizendo os poemas. Mas não é de uma hora pra outra que a calmaria passa. "O Espinho no Dedo de Deus" é mais uma música lenta e belíssima, em que a voz de Ademir ecoa dizendo "meu sangue não/meu santo é negro" e "meu sangue não/meu sangue é de leão". Como um lindo refrão.

Continua em: http://www.germinaliteratura.com.br/resenha13.htm

 

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h22
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