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Poetas de Israel – Iehuda Amikhai

 

Meu pai

 

A lembrança de meu pai embrulhado em papel branco

como a merenda para um dia de trabalho.

 

Como um mágico, a tirar de seu chapéu coelhos e palácios,

Ele retirava de seu corpo miúdo – o amor.

 

Os rios seus braços

se projetavam em suas boas ações.

 

[Para terminar: “Acreditamos que a poesia além de outras virtudes, possui a de tornar todas as criaturas compreensíveis umas às outras, na sua íntima verdade, que é a verdade do espírito. Compreender é de certo modo amar. Com essa intenção foi organizado este pequeno livro” (Cecília Meireles no Prefácio do volume Poesia de Israel por ela traduzido e organizado em 1962)]. 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h48
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Poetas de Israel – Nathan Áltermann

 

Lua

 

Mesmo as imagens familiares têm um instante de nascimentos.

Céus sem pássaros

são estranhos e fechados.

A noite fica à janela, ao luar,

e a cidade está mergulhada nas lágrimas dos grilos.

 

E ao ver que um caminho espera ainda um passante,

e a lua

em cima da baioneta do cipreste,

dizes: meu Deus, tudo isso ainda existe?

Pode-se ainda, em voz baixa, perguntar como estão passando?

 

A água das poças olha-nos e reflete-nos.

A árvore descansa

com seus brincos vermelhos.

Nunca, meu Deus, arrancarão de mim

o sofrimento dos teus grandes brinquedos.

 

 

[Quinta-feira, o quarto e penúltimo parágrafo: “Em grande parte esses poemas foram extraídos de Nicolas M. Lazar, Poetes israéliens d´aujourd´hui, recentemente aparecida, que apresenta o panorama atual dessa poesia, em terra própria. Outras coletâneas foram também utilizadas, como a bela Anthologie Juive de Edmond Fleg, e A treasure of Jewish Poetry editada por Nathan e Marynn Ausubel, etc.”]. 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h49
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Poetas de Israel – Avraham Chlonsky

 

Chuva em Sodoma

 

Ele contemplou lá do alto e mediu o terreno;

a cidade estendia-se máscula e vasta.

E esticados lá em cima por mão de arquiteto,

a chuva instalou milhares de fios de prumo verticais.

 

Uma chuva estéril que cai em quadrado,

pesa em goteiras, em ladrilhos,

lágrimas da terra que o asfalto extinguiu:

sobre a semente,

sobre o orvalho,

sobre as borbulhas

 

 

[Este é o terceiro parágrafo do prefácio que Cecília Meireles escreveu para o livro Poesia de Israel: “A escolha desses poemas obedeceu a um critério muito geral, que pretendia mostrar a versatilidade de uma literatura ao mesmo tempo saudosa de temas e vultos bíblicos, inspirada pela saudade messiânica e a esperança da Pátria, marcada pelos sofrimentos do exílio, peculiares ao seu povo, mas também identificada com todos os homens pelas suas experiências de espírito e coração”].



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h38
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Poetas de Israel – Chin Chalom

 

Nem tudo é tão simples

 

Nem tudo é tão simples, pelo pátio das casas.

As janelas encaram, dentro do acontecido.

Nas frias construções, no árido pavimento,

cada hora está gravada: cada hora que passa.

 

Nem tudo é tão simples, entre as quatro paredes:

há qualquer coisa na atitude das estantes,

e a pesada cortina, e o leito que se arruma

curvam-se a um jugo, a um peso de conhecimento.

 

E em toda a casa são as escadas sombrias.

Por elas descem de manhã, sobem à noite

Criaturas caladas, que fecham suas portas.

Minha alma por elas sofre, minha alma por elas reza.

 

 

[Hoje, reproduzimos o segundo parágrafo do prefácio escrito por Cecília Meireles para o livro Poesia de Israel, organizado e traduzido por ela em 1962: “A poesia de Israel – israelita ou israelense, em hebraico ou nos inúmeros idiomas utilizados pelos judeus em sua dispersão pelo mundo – abrande vastos horizontes e alcança grandes altitudes. Da Bíblia aos nossos dias, é incalculável o número que esse povo tem produzido, cada um com mistérios e graças particulares; alguns levados pela fama universal, como um Hofmannstal, um Heine; e alguns em suas torres gloriosas, como, na Idade Média, um Iehudá Halevy e, ainda há pouco, um Biálik.”].  



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 21h52
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Poetas de Israel – Nathan Zakh

 

Dizem

 

Aquele que tropeçou, tropeçou

dizem

que aquele que traiu traiu

dizem

que aquele que está só está só

dizem

que aquele que partiu partiu

dizem

que aquele que esqueceu esqueceu

dizem

que aquele que não está contigo

dizem que se foi embora

dizem que esqueceu.

 

 

[Do livro Poesia de Israel, organizado e traduzido por Cecília Meireles, publicado em 1962 pela Civilização Brasileira. Do prefácio, escrito por Cecília, reproduzimos o primeiro parágrafo: “Os poemas desta antologia serviram, a principio, para ilustrar uma conferência sobre a Poesia de Israel. Pelo interesse que despertaram, e por não estar ainda entre nós muito divulgada essa Poesia, aparecem agora em livro, como pequena contribuição ao intercâmbio cultural Brasil-Israel”. Amanhã, o segundo parágrafo].



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 21h42
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