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Margem de manobra – de Claudia Roquette-Pinto
Eu me cubro com o A da palavra farpada
eu me cubro com o A que traslada
(e a memória é a ignição de uma idéia
sobre dunas de pólvora).
Eu me deito na décima-terceira casa,
eu me deito sobre a letra de mãos dadas
M: escondo entre escombros
o sentimento que sobra.
Isto, sim, me comove,
o anel, quando soa
e o engloba, envelopa,
– letra O, de vertigem e pó,
que soçobra
Eis o despenhadeiro,
gargalo da fera,
eis o R que trai, apunhala,
desterra – eis o último tiro
sem margem de manobra.
[do recém-publicado Margem de Manobra, publicado pela editora Aeroplano, 2005.]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h04
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Quando ouvi o astrônomo erudito – de Walt Whitman
Quando ouvi o astrônomo erudito,
Quando as provas, os números foram enfileirados diante
de mim,
Quando me foram mostrados os mapas e diagramas a somar, dividir e medir,
Quando, sentado, ouvia o astrônomo muito aplaudido, na
sala de conferências,
Senti-me logo inexplicavelmente cansado e enfermo,
Até que me levantei e saí, parecendo sem rumo
No ar úmido e místico da noite, e repetidas vezes
Olhei em perfeito silêncio para as estrelas.
[do livro Antologia da nova poesia norte-americana, publicado em 1992, com seleção, tradução e notas de Jorge Wanderley].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h37
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Poema de Mário Faustino
(O homem & sua hora e outros poemas, Cia. das letras, pg 132-133)
– Inês, Inês, quem sobrevive, quem,
nos filhos que fabrica?
ut – re – mi – tílias ao vento soltas sussurrando –
– Lídia, a geração dos homens, folhas, folhas,
há-de passar na brisa:
Hino ouvido entre neves:
ulti... multi ... venturas, aventuras,
vento ululando, vento urrando – vê,
multidões precipitam-se:
“till death doth us part”: até que a Morte, a Idade,
Idade no separe: gerações, orações, berrações,
oh in – ut – ilidade, Inês, quem vive,
sobre que filhos, sobre que folhas?
Ouve, repara, ávida Lídia, os sinos,
os fabricados sinos se partiram,
os generados filhos se quebraram,
todos falhamos, tudo,
ai todos farfalhamos, sinos, folhas:
As fabulosas naves passam prenhes.
Os fenecidos anos voltam secos.
Degenerados, regenerados?
Inês, Lídia – passamos.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h44
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Canções para Drella – por Virna Teixeira
Por volta de 1965, Andy Warhol andava à procura de uma banda em Nova Iorque para um clube noturno que ele queria começar, algo que fosse diferente do estilo “flower power” que dominava na época. Assistiu a um concerto do Velvet Underground e gostou imediatamente da música e da atitude da banda: vestiam-se de preto, usavam óculos escuros (para evitar a visão da platéia) e o conteúdo das suas letras deixava as pessoas desconfortáveis. Um encontro perfeito entre a arte de Warhol, as letras do líder-cantor Lou Reed e a musicalidade do britânico John Cale. Warhol ficou ainda fascinado por Lou Reed, um jovem nascido em uma família conservadora do Brooklyn, que tinha recebido sessões de eletrochoque para controlar suas oscilações de humor e tendências homossexuais.
A banda se apresentava no atelier perfomático de Andy Warhol, o Factory. Foi dele a idéia de convidar a bela e estranha Nico para vocalista no lugar de Lou Reed. Não foi apenas uma obsessão estética, mas começaram enfim a surgir problemas. O Velvet Underground gravou álbuns extremamente originais, influenciou diversas bandas que viriam depois, o movimento punk inclusive e foi um grande sucesso. Porém, geniais e instáveis, surgiram vários atritos. O Velvet era conhecido como “amphetamine band”, o consumo de substâncias era alto e Lou Reed, hoje um dependente recuperado de anfetamina (e heroína), ficou paranóico sob o efeito da droga, o que também gerou vários desentendimentos. John Cale saiu primeiro da banda, depois foi a vez de Lou Reed em 1970. O Velvet Underground se dissolveu e os membros do grupo pararam de se falar.
Andy Warhol morreu precocemente em 1988 e Lou Reed e John Cale finalmente se renconciliaram no seu funeral. Deste encontro nasceu o desejo de uma homenagem para Warhol e o belo e melancólico álbum “Songs for Drella” lançado em 1990. Drella é um neologismo usado para celebrar a androginia de Andy Warhol, uma mistura de Drácula e Cinderela. (CONTINUA)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h31
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Espécie de biografia escrita por Lou Reed e musicada por Cale, as letras de “Songs for Drella” relembram a trajetória de Warhol, que começa com “Smalltown”, os preconceitos sofridos por ele na infância em Pittsburgh, um garoto sensível filho de imigrantes: When you're growing up in a small town/ Bad skin, bad eyes, gay and fatty/ People look at you funny/ When you're in a small town.
Depois segue-se “Open house”, sobre as portas abertas da casa-atelier de Warhol, que recebia todo o underground de Nova Iorque. Seu espírito de grupo em “Faces and names”. Sua arte em “Images”, “Trouble with classicists” e “Work”. A descoberta da importância do dinheiro no meio artístico em “Style it takes”: You’ve got the money, I’ve got the time/ You want your freedom, make your freedom mine. Sua natureza existencialista em “It wasn’t me”. Suas reflexões em “Nobody but you”. Sua tranformação em “Forever changed” e o episódio Valerie Solanis em “I believe”.
E por fim, a belíssima “Hello it’s me”, espécie de carta, conversa e epitáfio escrito por Lou Reed para “Andy”. Trata de vários episódios de uma amizade profunda e difícil, de mágoas e ressentimentos: I have some resentments that can never be unmade. E sobretudo sobre a perda, a falta e a saudade: I really miss you, I really miss your mind/ I haven’t heard ideas like that for such a long long time.
Lou Reed é um sentimental, embora não pareça. No encarte do disco, ele faz um comentário sobre Warhol: “Chocolates were his weakness”. Drella teria adorado.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h28
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Discoteca mágica do pesa-nervos, leonardo gandolfi
Nilsson Schmilsson – de Harry Nilson
Harry Nilsson é um daqueles músicos que talvez nunca tenhamos percebido bem. Sempre esteve ali com duas ou três músicas que sabemos dele e que, só por acaso, uma ou outra coletânea de qualquer coisa as inclui. Pois bem, o disco acima é um baú de preciosidades. Nilsson Schmilsson é de 1971 e possui canções que nunca ouvimos, mas que, sem saber onde ou como, conhecemos. O piano que abre a primeira música, Gotta get up, soa como se sempre estivesse conosco, mesmo nos dias de silêncio. The moonbeam song é de outro planeta. Without you, que todos conhecem, é a trilha sonora de muita coisa, muita mesma: desde comprar pão de tarde até de coisas que nem mesmo passaram e já sentimos saudade. Coconut, uma raridade, foi utilizada por Tarantino para fechar Cães de Aluguel: aquela cena em que Steve Buscemi, o mais ridículos dos ladrões, foge com todas as jóias do roubo. Meu Nilsson Schmilson não é original, é uma cópia a partir das músicas baixadas na internet pelo meu grande amigo Tiago Lyra. Não é original, mas soa como se fosse. Ele está lá no rádio do carro já há uns seis meses. Escrevo isso agora sem ouvi-lo. Ele está lá no carro esperando por mim e pelos engarrafamentos que eu pego toda manhã.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h47
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Poema inédito de Carlos Augusto Lima
a flecha de
capricórnio raspa cabeças,
suave é a provocação
insetos esmigalham-se
contra janela, almíscar
cânfora jasmim, frascos
à venda. amor econômico,
matemático. estratagemas
de perdão, exorcizo de
viés maligno, visitas
assombrosas, frascos à venda.
almíscar cânfora jasmim
em conserva: repouso, conformação,
lacerações lacradas,
aroma artificial de menta, uma tocata
hóstias
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h05
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