pesa-nervos


Trecho do conto “Poeta obscuro”

do livro Os passos em volta de Herberto Helder

felizmente publicado no Brasil pelo Azougue Editorial.

 

 

(...)

O poema que se escreve – longo texto fluindo, denso e venenoso, a imitar a substância ao mesmo tempo vivificante e corruptora do sangue – não é sequer uma oferta dirigida a Deus. É a ironia, onde desliza a arma da nossa obscuridade. Tremenda força, essa. Escrevo o poema – linha após linha, em redor de um pesadelo do desejo, um movimento da treva, e o brilho sombrio da minha vida parece ganhar uma unidade onde tudo se confirma: o tempo e as coisas. De modo que é um extraordinário triunfo tomar o papel entre duas mãos sábias e rasgá-lo aos bocadinhos, sorrindo. Nem precisa haver Deus como interlocutor de intenções e gestos. Nem logramos nunca os outros, os semelhantes, os próximos e afastados, os homens todos. Trata-se de orgulho, de inocência. Obscuros somos sempre mesmo sem pedi-lo. Grande vitória que ninguém nos poderá arrebatar. Que nem mesmo Deus, se existisse... Etc.

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h34
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Explicações científicas – por Gonçalo M. Tavares

 

 

Explicam cientificamente as decisões de um planeta,

porém não há laboratório capaz de estudar

a razão por que o homem se levanta

da cadeira quinze minutos depois

de ter bebido o seu café.

Descuidou-se a biblioteca: esqueceu acontecimentos mínimos.

Só há livros sobre reis e invasões, enormes discursos,

nem uma única página sobre as palavras

bom-dia, da peixeira ao jovem comprador.

Ninguém conhece um facto por dentro, ou uma acção,

como se conhece uma coisa.

Quem vem do nascimento vai para a morte,

são como dois lugares fixos,

mas cuja distância entre eles depende do acaso, quase sempre,

umas vezes da doença exterior,

raramente da decisão do homem triste

que se suicida.

 

 

[do livro 1, que a Bertand Brasil publicou recentemente. Gonçalo M. Tavares é um dos poetas portugueses contemporâneos mais interessantes.]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h37
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Poema de Edmond Jabès, por Caio Meira

 

 

L’appel

 

Visage du présent. Visage du passé.

Un voile les sépare. Un rideau humide.

L'œil, encore brouillé, d'une larme ancienne.

Mélancolie. Mélancolie.

 

Nous mourons de ce qui nous réduit.

 

 

Apelo

 

Rosto do presente. Rosto do passado.

Um véu os separa. Uma cortina úmida.

O olho, de novo enevoado, de uma lágrima antiga.

Melancolia. Melancolia.

 

Morremos do que nos reduz.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h39
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Visão – por Sebastião Uchoa Leite

 

Vejo um cego desencontrado como um asteróide, tenso, com passos medidos, e que olha para cima e de lado, qual a terceira figura da “Parábola dos cegos” de Peter Bruegel. A bengala metálica e matemática toca o chão de leve. Perplexo, esbarra numa moto na calçada, apalpa o obstáculo e desvia-se em ângulo inclinado para a frente e a direita. Choca-se – como aquele asteróide em cima – com a quina de uma banca. Sonda o novo enigma e contorna-o. Perco-o aí de vista na multitude vile.

 

[In: A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras, 1990].



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h39
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