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Homem e mulher na cama às dez da noite – de Charles Bukowski
eu sou a fim de uma lata de sardinhas, ela disse.
eu sou a fim de um band-aid, eu disse.
eu sou a fim de um sanduíche de atum, ela disse.
eu sou a fim de um tomate fatiado, eu disse.
eu sou a fim de que fosse chover, ela disse.
eu sou a fim de que o relógio parasse, eu disse.
eu sou a fim de que a porta estivesse destrancada, ela disse.
eu sou a fim de que um elefante entrasse, eu disse.
eu sou a fim de que nós pagássemos o aluguel, ela disse.
eu sou a fim de que nós arrumássemos um emprego, eu disse.
eu sou a fim de que você arrumasse um emprego, ela disse.
eu não sou a fim de trabalhar, eu disse.
(continua)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h20
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eu sinto que você não liga pra mim, ela disse.
eu sinto que nós devíamos fazer amor, eu disse.
eu sinto que nós temos feito amor demais, ela disse.
eu sou a fim de que fizéssemos mais amor, eu disse.
eu sou a fim de que você arrumasse um emprego, ela disse.
eu sou a fim de que você arrumasse um emprego, eu disse.
eu sou a fim de um drinque, ela disse.
eu sou a fim de um uísque, eu disse.
eu sinto que vamos acabar no vinho, ela disse.
eu sinto que você está certa, eu disse.
eu sou a fim de desistir, ela disse.
eu sou a fim de tomar um banho, eu disse.
eu sou a fim demais de que você tomasse um banho, ela disse.
eu sou a fim de que você lavasse as minhas costas, eu disse.
eu sinto que você não me ama, ela disse.
eu sinto que te amo, eu disse.
eu sinto aquela coisa em mim agora, ela disse.
eu sinto aquela coisa em você também, eu disse.
eu sinto que te amo agora, ela disse.
eu sinto que te amo mais do que você a mim, eu disse.
eu me sinto incrível, ela disse, eu sou a fim de gritar.
eu sou a fim de que continuasse para sempre, eu disse.
eu sou a fim de que você possa, ela disse.
eu sou a fim, eu disse.
eu sou a fim, ela disse.
[Poema de Charles Bukowski em tradução de Fernando Koproski, incluído em Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7 letras, 2005)].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h19
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Especial Charles Bukowski – por Fernando Koproski
Para esse autor que considerava a si próprio, em primeiro lugar, como um poeta, e somente depois prosador, é inegável reconhecer entre a suas qualidades poéticas, a capacidade de fazer da poesia um lugar onde tudo cabe, pois praticamente qualquer coisa pode se tornar matéria de sua poesia. De fato, a poesia para Bukowski é esse lugar, onde, não raro, ele consegue impor significação e possibilitar lascas de sabedoria e lirismo em momentos comuns e coisas triviais do cotidiano, mesclando tais momentos com abstrações a fim de tornar mais vívida uma cena, ou intensificar um tema.
Assim sendo, o que verificamos tanto em suas considerações sobre poesia, quanto em seus poemas, é que a diferença essencial entre prosa e poesia é a sua idéia de poesia como a forma mais curta, bonita e explosiva de se expressar, forma essa, devidamente exercitada por esse poeta que não teve receio de escrever e viver o que para seus contemporâneos (poetas, escritores, críticos e leitores) não era então considerado matéria de poesia, ou seja, procurando e alcançando poesia nos momentos mais comuns e aparentemente sem importância do dia-a-dia.
Ainda que uns digam e outros insistam que não, a poesia de Bukowski está aí: uma poesia de intensidade, concisão e beleza, que pode fazer, segundo ele, quase qualquer coisa. Uma poesia que te permite desde cumprimentar Mozart a atravessar as ruas da morte. Poesia que às vezes pode emoldurar a agonia e pendurá-la na parede ou ainda, simplesmente, fazer uma mente despedaçada voar. E que mesmo envolta por uma realidade insatisfatória, chega decidida, liricamente determinada a te causar ternas perturbações, como uma borboleta em seu cérebro.
(...)
[Fragmento do texto de apresentação “A poesia dentro do universo bukowskiano” do livro Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém, antologia de poemas de Charles Bukowski organizada e traduzida por Fernando Koproski, lançada recentemente pela Editora 7 Letras].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h23
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Mais uma do velho Buk – por Fernando Koproski
(..)
isto não é um poema.
poemas são um tédio,
eles te fazem
dormir.
estas palavras te arrastam
para uma nova
loucura.
você foi abençoado,
você foi atirado
num
lugar que cega
de tanta luz.
o elefante sonha
com você
agora.
a curva do espaço
se curva e
ri.
você já pode morrer agora.
você já pode morrer do jeito
que as pessoas deveriam
morrer:
esplêndidas,
vitoriosas,
ouvindo a música,
sendo a música,
rugindo,
rugindo,
rugindo.
[Fragmento do poema “Splash” de Charles Bukowski em tradução de Fernando Koproski, incluído em Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7 letras, 2005)].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h29
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Especial Bukowski – por Fernando Koproski
O universo bukowskiano é o universo dos bêbados, das prostitutas, dos marginalizados, dos miseráveis, dos solitários, dos perdedores e excluídos, dos perdidos e desesperados; o universo de Henry Chinaski, o alter-ego do escritor, que mora em quartos sujos de hotéis baratos de Los Angeles, enquanto passa seus dias de subemprego em subemprego, imaginando e desenvolvendo os mais diversos métodos de aposta em corridas de cavalo. Enfim, um universo de cenas cotidianas de bebedeiras, em que Bukowski mostra com irreverência e humor lancinante as loucas, impetuosas, decadentes e gloriosas mulheres e mulheres e mulheres que passam por suas noitadas.
Embora esse universo seja explorado pelo autor em seus livros de contos e romances – como por exemplo em Cartas na rua, Factotum e Mulheres – ele não se revela exclusivo de sua prosa, pois é também um universo recorrente em sua produção poética. Sem dúvida, ao escrever de forma simples, intensa e liricamente desafiadora sobre esse universo na maior parte de sua obra poética, Bukowski pode ser considerado único na poesia americana moderna. De fato, são mais de vinte livros de poemas onde o autor retrata de maneira realista, convincente e inovadora o universo das relações humanas no dia-a-dia, sejam estas as relações entre homens e mulheres ou as que há entre uma criança e seus pais, além de dedicar uma atenção especial à experiência daqueles que fracassaram ou que não foram assim tão bem-sucedidos em sua busca pelo sonho americano.
[Fragmento do texto de apresentação “A poesia dentro do universo bukowskiano” do livro Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém, antologia de poemas de Charles Bukowski organizada e traduzida por Fernando Koproski, lançada recentemente pela Editora 7 Letras].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h35
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O Bluebird – de Charles Bukowski
em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.
em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas do mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.
(continua)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h04
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em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear com minha
obra?
detonar com minha venda de livros na
Europa?
em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite às vezes
quando todos estão dormindo.
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.
daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?
[Poema de Charles Bukowski em tradução de Fernando Koproski, incluído em Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7 letras, 2005)].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h03
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