pesa-nervos


Carteiros desonestos – de Robert Creeley

 

 

Estão levando as minhas cartas, todas,

para o fogo.

 

            Vejo as chamas, etc.

Mas não ligo, etc.

 

Queimam tudo o que tenho, ou o pouco

que tenho. Não ligo, etc.

 

O poema supremo, endereçado

ao vazio – esta é a coragem

 

necessária. Isto é coisa

bem diferente.

 

 

[do dossiê organizado e traduzido por Luiza Franco Moreira para a revista Inimigo Rumor, número 17, 2004/2005].



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h52
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Perda de auréola – de Charles Baudelaire

 

“O quê!? Você aqui, meu caro? Você, num lugar desses! Você, o bebedor de quintessências!, O comedor de ambrosia! Francamente, é de surpreender.”

 

“Meu caro, bem conhece o pavor que tenho dos cavalos e dos coches. Agora há pouco, quando atravessava o bulevar, saltando sobre a lama, através desse caos movente em que a morte chega a galope, por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou de minha cabeça para o lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei menos desagradável perder minha insígnias do que quebrar os ossos. E depois pensei cá comigo, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você, como pode ver!”.

 

“Deveria ao menos dar parte do desaparecimento dessa auréola, comunicar o ocorrido ao comissário”.

 

“Ah, não. Me sinto bem. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me aborrece. Depois, penso com alegria que algum poeta medíocre vai achá-la e com ela, impudentemente, se cobrir. Fazer alguém feliz, que prazer! E principalmente um felizardo que me faça rir! Pense em X ou em Z! hein? Como vai ser engraçado!”.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h55
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Um poema de Paul Celan

(tradução de Claudia Cavalcanti)

 

 

HAVIA TERRA neles, e

escavavam.

 

Escavavam, escavavam, e assim

o dia todo, a noite toda. E não louvavam a Deus

que, como ouviram, queria isso tudo,

que, como ouviram, sabia isso tudo.

 

Escavavam e não ouviram mais nada;

não se tornaram sábios, não inventaram uma canção,

não imaginaram linguagem alguma.

Escavavam.

 

Veio um silêncio, veio também uma tormenta,

vieram os mares todos.

Eu escavo, tu escavas, e o verme também escava,

e quem canta ali diz: eles escavam.

 

Oh alguém, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:

para onde foi, se não há lugar algum?

Oh, tu escavas e eu cavo, e eu me escavo rumo a ti,

e no dedo desperta-nos o anel.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h24
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Elvis Costello, domingo agora, no MAM. Fiquei perto do palco e tirei algumas fotos. Foi de tirar pica-pau do oco. Leonardo Gandolfi.

O homem mal-educado – de Gonçalo M. Tavares

 

O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.

Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.

No dia em questão colocou na cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.

Todos aguardavam.

A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.

O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça. Aproximaram-se, então, para finalmente arrancaram o chapéu àquele mal-educado.

Mas não conseguiram.

Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.

 

 

[do livro O senhor Bretch, que faz parte da série O bairro. A editora Casa da Palavra publicará os outros três livros desta série, quais sejam: O senhor Valéry, O senhor Henri e O senhor Juarroz].

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h48
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Paulo Leminski – A ditadura da utilidade

 

A burguesia criou um universo onde todo gesto tem que ser útil. Tudo tem que ter um para quê, desde que os mercadores, com a Revolução Mercantil, Francesa e Industrial, substituíram no poder aquela nobreza cultivadora de inúteis heráldicas, pompas não rentáveis e ostentosas cerimônias intransitivas. Parecia coisa de índio. Ou de negro. O pragmatismo de empresários, vendedores e compradores, mete preço em cima de tudo. Porque tudo tem que dar lucro. Há trezentos anos, pelo menos, a ditadura da utilidade é unha e carne com o lucrocentrismo de toda esta nossa civilização. E o princípio da utilidade corrompe todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro. Vida é dom dos deuses, para ser saboreada intensamente até que a Bomba de Nêutrons ou o vazamento da usina nuclear nos separa deste pedaço de carne pulsante, único bem de que temos certeza.

 

[do ensaio-anseio Inutensílio, incluído no livro Ensaios e anseios crípticos, edição do Pólo Editorial do Paraná, de 1997]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h14
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