pesa-nervos


Leminki e Alice Ruiz

O indispensável in-útil – por Paulo Leminski

 

 

As pessoas sem imaginação estão sempre querendo que a arte sirva para alguma coisa. Servir. Prestar. O serviço militar. Dar lucro. Não enxergam que a rate (a poesia é arte) é a única chance que o homem tem de vivenciar a experiência de um mundo da liberdade, além da necessidade. As utopias, afinal de contas, são, sobretudo, obras de arte. E obras de arte são rebeldias.

A rebeldia é um bem absoluto. Sua manifestação na linguagem chamamos poesia, inestimável inutensílio.

As várias prosas do cotidiano e do(s) sistema (s) tentam domar a megera.

Mas ela sempre volta a incomodar.

Com o radical incômodo de uma coisa in-útil num mundo onde tudo tem que dar um lucro e ter um por quê.

Para que por quê?

 

 

[a última parte do ensaio-anseio Inutensílio, incluído no livro Ensaios e anseios crípticos, edição do Pólo Editorial do Paraná, de 1997]

 

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h16
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 gary snyder, aventureiro

 

 

[poema de gary snyder traduzido por luci collin: re-habitar: ensaios e poemas, editorial azougue, 2005]

 

Informação de alta qualidade

 

Uma vida em busca disto

Como um verme na terra,

Como um falcão. Ligando cabos

Esboçando sistemas

Prevendo onde vai dar a conexão.

Lao-tzé diz que

O melhor é esquecer o que se sabe.

É isso que quero:

Baixar todas as miras,

Remover, direto pro lugar

Onde elas serenam

De volta à mentalidade do meu tempo.

O mesmo velho circuito

Salvo algumas linhas codificadas por cores

Vazio

E estamos livres pra ir.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h13
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Um soneto de Eugénio de Andrade

 

Shelley sem anjos e sem pureza,

aqui estou à espera nesta praça,

onde não há pombos mansos mas tristeza

e uma fonte por onde a água já não passa.

 

Das árvores não te falo pois estão nuas;

das casas não vale a pena porque estão

gastas pelo relógio e pelas luas

e pelos olhos de quem espera em vão.

 

De mim podia falar-te, mas não sei

que dizer-te desta história de maneira

que te pareça natural a minha voz.

 

Só sei que passo aqui a tarde inteira

tecendo estes versos e a noite

que há-de trazer e nos há-de de deixar sós.

 

 

[do livro Poemas de Eugénio de Andrade, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Com seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva].

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h23
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Santos Dumont, um pouco mais velho, é o do meio.

  

Poema de leonardo gandolfi

 

 

O coração subentendido do elefante

desce por uma linha que vai dar ao lado

de termos cujo não interno lembra a chuva.

Desce sem movimento e por analogia.

 

E junto dessa estrofe, de novo uma casa.

No quintal dois cachorros latem sem parar;

um deles nada sabe acerca do elefante

e de seu coração localizado às pressas.

 

Leio o poema como quem mora na casa.

O elefante é do lado de fora. Por isso,

o quintal, os cachorros, os termos, a linha.

 

Interrompem-se então o peso e a referência.

Talvez viesse pelas águas. Improvável.

Sobre a copa das árvores, a ventania.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h20
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O homem de neve – por Wallace Stevens

 

É preciso ter uma mente de inverno

Para contemplar a geada e os ramos

Dos pinheiros recobertos pela neve;

 

E ter estado frio muito tempo

Para olhar o zimbro espessado pelo gelo

E os abetos ásperos na luz distante

 

Do sol de janeiro; e para não pensar

Em qualquer miséria ao som do vento,

Ao som de umas poucas folhas,

 

Que é o som da terra

Cheio do mesmo vento

Que sopra no mesmo espaço desnudo.

 

Pois o ouvinte, que escuta na neve

Sendo nada ele mesmo, contempla

Nada que não está lá e nada que está.

 

 

[do livro Antologia da nova poesia norte-americana, publicado em 1992, com seleção, tradução e notas de Jorge Wanderley].



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h07
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