Um soneto de Eugénio de Andrade
Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.
Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.
De mim podia falar-te, mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.
Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que há-de trazer e nos há-de de deixar sós.
[do livro Poemas de Eugénio de Andrade, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Com seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva].
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h23
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