pesa-nervos


A Seqüela, de Delmore Schwartz

tradução de Virna Teixeira

 

Primeiro amor é primeira morte. Não há outra.

Não há morte. Mas todos os homens vivem para sempre.

E morrem para sempre. Se isto não fosse verdade,

Estaríamos mais decepcionados, ainda mais decepcionados

Que esta crença nos decepcionou, se pensamos ou

Não que acreditamos ou pensamos que

Os que acreditam estão decepcionados. Mas acreditar

Que a morte é o doce asilo do nada:

É o sonho cruel e doentio do criminoso e do suicida:

Dos que negam a realidade, dos que roubam da consciência,

Dos que estão sempre fugindo, dos que têm medo de viver,

Dos que estão atemorizados pelo amor, e

            Os que tentam-antes que eles

                  Tentem morrer-sumir

                        E se esconder.

 

 

The Sequel: First love is first death. There is no other. / There is no death. But all men live forever. / And die forever. If this were not true, / We would be more deceived, still more deceived / Than this belief deceived us, whether or not / We think that we believe or we think / Those who believe are deceived. But to believe / That death is the sweet asylum of nothingness: / Is the cruel sick dream of the criminal and the suicide: / Of those who deny reality, of those who steal from consciousness, / Of those who are often fugitive, of those who are afraid to live, / Of those who are terrified by love, and Those who try-before they / Try to die-to disappear /And hide. 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h09
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Para o livro de literatura de segundo grau

um poema de Hans Magnus Enzenberger

 

Não leia odes, meu filho, lê os horários

(dos trens, dos ônibus, dos aviões):

são mais exatos. Abre os mapas náuticos

antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.

Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas

no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem

não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:

a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.

Entende da pequena traição,

da salvação suja de todos os dias. Úteis

são as encíclicas para se fazer fogo,

e os manifestos: para a manteiga e sal

dos indefesos. É preciso raiva e paciência

para se soprar nos pulmões do poder

o fino pó mortal, moído

por aqueles, que aprenderam muito,

que são exatos por ti.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h34
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A mais pós-moderna planta do pé – por Rodrigo de Souza Leão

 

Glauco Mattoso é o campeão mundial de fetiche quando o assunto é pé. Ele sabe falar muito bem sobre o tema. Pensando assim é que podemos entrar no seu mais novo livro. Trata-se de A planta da donzela, editora Lamparina (2005). Também se pode degustar o ótimo texto ao constatar o delicioso pastiche que o autor elabora. Ele faz um excelente trabalho ao “mixar” sua voz com a de José de Alencar de A pata da Gazela. Reescreve a história original colocando uma pimenta de pós-modernidade na panela do que parecia já ultrapassado.

Do opúsculo transcrevo o seguinte trecho:

“Enquanto não se decide a devolver a botina, Horácio trata de manuseá-la o mais que pode. Não satisfeito, torna a beijá-la, dessa vez por baixo. Tem ímpetos de lambê-la, mas refreia aquele impulso, logicamente para protetá-lo até a noite, quando estiver mais acomodado e puder sentir o áspero contato do solado, não só contra o rosto, mas também sob a nudez de sua pele abdominal estremecida por frêmitos... porém não de frio, já que o ar está abafado, apenas deslocando a leve brisa que traz para o interior da alcova, pela janela aberta, o eco longínquo de um batuque, parecendo ritualizar a simulação feita pelo moço entre a botina e seu corpo, como se aquela estivesse calçada e este prostrado...

Deixa Horácio, então, a reflexão acerca da armadilha que o ocaso está preparando para o mais querido galã das belas fluminenses, o Átila do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor, o pavão dos galinheiros imperiais.”

Este é o Glauco Mattoso mostrando que a mania por pés já vem de longa data. As orgias de podolatria estão presentes desde que o mundo é mundo ou imundo, depende do pé e muito mais da cabeça de qualquer ser que sobrevive a dias tão bicudos quanto os que estamos vivendo. E viva Glauco e a sua planta do pé pós-moderna!

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h48
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[poema inédito de horácio costa]

 

 

CANÇÃO

 

canção que não quer dizer nada

que não diz nada

canção que não diz da terra longínqua

da escotilha           da queimada

canção que me diz do seu coração

longínquo

do seu coração queimado

canção que nada diz

e que dançávamos colados

e que não fala de si

de ondas     passos entrelaçados

desse amor morto

desse amor que falará dela

para falar de si

canção que nada

diz

                                                                                                          SP 31 X 05



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h14
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Uma canção só – por Franklin Alves

 

Uma canção só ou três pequenas canções. Gonçalo M. Tavares na pele de outro senhor, o Senhor Bretch (editora Casa da Palavra, 2005) Uma canção só ou três pequenas pancadas; três pequenas histórias deste português, quais sejam:

 

Estética

Uma mulher gorda que queria perder peso chegou ao médico e disse:

Corte-me uma perna.

 

Os poetas

Os poetas, numa enorme fila que ultrapassa já a esquina do quarteirão seguinte, aproveitam o momento de espera para preencherem cuidadosamente o formulário.

 

Medidas enérgicas

O governo corrigia os desequilíbrios sociais colocando duas sentinelas em redor de cada pobre.

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h54
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