pesa-nervos


Outro poema inédito de Horácio Costa

MULHERES LOUCAS

 

A Liliana Weinberg

 

 

Creio vê-las, e porque não, que

Entram neste quarto de hotel:

Carlota, princesa de belgas e

Imperatriz de mexicanos, Mary

Todd, viúva de Lincoln e Maria

Dita a Louca, rainha de portugueses:

Benvindas, mulheres de há duzentos

Anos, com os vossos fru-frus e perucas

E jóias para a ocasião, que me visitais,

Mulheres loucas, nesse hotel de três

Estrelas, em Roma. Sede benvindas,

Porque me trazeis mais do que enfeites,

Camafeus, pérolas: trazeis-me também

Vossos delírios e viuvezes, e vossas

Mui políticas histórias, o Imperador

Cujo corpo vos foi negado, Carlota,

(CONTINUA)



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h17
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No Cerro de las Campanas, as manchas

Do sangue do unificador do novo império

Depois da soirée no teatro em Washington,

E o puro delírio, Maria, que tínheis que

A corte em Lisboa era o paraíso sul terra

Mas que esse paraíso era pouco para vós.

Como vos receberia eu, se não

Vestido com um quimono, olhando

Da colina distante a cúpula de São

Pedro, sob a égide do Vaticano? Sim,

Não vos disse que admiro  a vossa

Loucura suave e bela como a quis

Definir Shakespeare, no caso de Ofélia:

Admiro a vossa loucura louca, mulheres

Envoltas nos corpinhos da vossa extrema

Insuspeitável condição. Loucas mulheres:

Ensandecestes porque oficialmente

Haviam morrido os vossos maridos, ou

Bem porque assim o determinastes:

Havíeis considerado a vossa loucura

Desde que nascestes, mesmo no ventre de

Vossas quiçá também loucas mães.

Enganastes vossos pretendentes ou consortes

Com um brilho suspeito, fascinante

No olhar que vossos familiares e governantas

Atribuíam apenas à miopia, ao phleugma, e

Eis que não era nada disso, vossos dragões

Vorazes necessitavam de viuvezes para

Manifestarem-se, da paisagem tão esquálida

(CONTINUA)



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h13
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De Querétaro, da paisagem tão cheia

De rostos alheios do teatro da Avenida

Pensilvânia, ou da paisagem barroca do Rio

De Janeiro, tanto faz: vossas loucuras

Necessitavam paisagens que não as dadas

Por pendentifs e tiaras e espelhos, e

De algo real: sim, de algo mais real que

Vossos pulsos cobertos de pedrarias e vossas

Palavras, de obrigadas. De fato a nada ninguém

Nunca vos obrigou, e vos recebo aqui como se

Recebesse a visita de um maesltröm: entrais

Porta adentro, cada uma sem ver a quem faz

Companhia, cada quem sem saber que é parte

De uma procissão sem velas. E entrais com

Vossas saias adamascadas, vossas trousses

Ao braço, e não me vêdes, vêde vós: atravessais

A extensão do quarto e vos atirais, uma

Após outra, do balcão: nunca foi o céu de Roma

Mais feliz, e nem eu um hospedeiro menos

Comprometido, por que com vosso salto

E vossas saias de etiqueta infladas como balões

A imitar a conspícua cúpula bramantesca

Vai o meu, e desenho não um balão que como

O vosso pairasse sobre o Monte Mario, mas

O cair de uma maçã, de uma simples maçã,

Sobre este aspérrimo e ínclito chão.

 

Roma, 29/30 IX 05

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h12
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[coleção salsugem] por Leonardo Gandolfi

Lodo em que haja algo do sal e com a qual se articulam os nomes; o que hesita à tona do mar e perto da areia, língua:

 

1. Camilo Pessanha /  Portugal

2. Yao Jingming /  Macau

3. Daniel Faria /  Portugal

4. Eduardo White /  Moçambique

 

 

1. Camilo Pessanha, poeta dos fins do XIX e início do XX. Influenciou diretamente Pessoa. Simbolista ímpar que traz à tona com maior ênfase o problema sujeito/objeto na poesia portuguesa. Livro: Clepsydra. Amostra grátis:

 

 

À flor da vaga, o seu cabelo verde,

Que o torvelinho enreda e desenreda...

O cheiro a carne que nos embebeda!

Em que desvios a razão se perde!

 

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,

Que a onda, crassa, num balanço alaga,

E reflue (um olfacto que se embriaga)

Como em um sorvo, murmura de gozo.

 

O seu esboço, na marinha turva...

De pé, flutua, levemente curva,

Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

 

E as ondas lutam como feras mugem,

A lia em que a desfazem disputando,

E arrastando-a na areia, co’a salsugem.

 

[Em breve os demais]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h21
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Três das Entre Conversas, 1999, para Wilson Bueno

de Manoel Ricardo de Lima

 

 

010599

 

Depois, ao lado das moradas, a casa. O quarto, um quase-quase. Malogro: amor que não é tranqüilo, nem aqui. Vem de uma alameda e plátanos, tremores e revés. Degrada a impossibilidade, uma trempe. O que deveria, e sexo. A porra devora a palavra não dita. Pudera, pudera: sensação de abandono.

 

250599

 

Nada mais e nada mais e um mínimo contraponto: o riso, o choro. Nada mais e nada mais e um tanto parece: fisionomia de riso, fisionomia de choro. É desfaçatez, alguém disse. Negar um é o princípio do outro. Como ver o filme sobre os caçadores. Lá, a lágrima perde espaço. A chuva encerra: ela, o próprio tempo. Quem vive?, se uma pergunta.

 

250599           

 

Entre as pedras do paralelepípedo, numa insistência que nem outras vezes digo. À vista, crescer com os crisântemos amarelos, na garagem. Bem perto do automóvel vermelho. O homem do correio numa camiseta amarela entregou o envelope, perguntei se era só isso, disse que sim, tomou um assombro e saiu num zás: ao que veio dentro.

 

[Publicado no número 4 da revista Grumo. Grumo está on-line com os três primeiros números quase completos: http://www.revistagrumo.com/]

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h18
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Uma canção só – por Franklin Alves

 

Uma canção só, algumas frases, um parágrafo. Uma canção só numa terça-feira comum. Numa terça-feira comum? Uma canção depois de Eliot. Um trecho do ensaio A querela dos ultrapassados do poeta português Gastão Cruz, incluído no livro A poesia portuguesa hoje. Eis o trecho (ao som de outra canção, Starstruck):

 

“A poesia – nunca se insistirá demasiado nisto – é uma investigação permanente. Escreve-la é, automaticamente, contestar e refazer toda a poesia anteriormente escrita. Cada obra poética é uma nova totalidade; cada estilo, uma nova síntese. A importância de um poeta depende da coesão e da ousadia da síntese obtida. A originalidade e a inovação, não só não são incompatíveis com um profundo enraizamento em um ou vários sectores da poesia pré-existente, como só possuirão consistência que as imponha se provierem do estudo amadurecido dessa poesia. Não é possível inovar, em dado momento, sem o conhecimento da problemática da composição nesse momento, pois inovar é enfrentar oportunamente problemas, embora no acto de criação se possa ter maior ou menor consciência disso”.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h31
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Kerouac tocando na rádio?

 

 

Beatificação beat

de Luiz Roberto Guedes

 

 

 

anos & anos emborcando bourbon com cerveja

 

metralhando na velha royal a crônica da sarjeta

 

racontos de fodas & fudidos mundanas & vadios

 

rapsodo compassivo da casta dos perdedores

 

germinando verrugas & hemorróidas & pontificando

 

poemas prosaicos sobre dias opacos maresia de

 

garrafas vazias barco bêbado desde o princípio des

 

tinado a todos os desastres |sol estático sobre o

 

último ato| fim da linha fim da estrada beco cego

 

& ainda uma última linha antes do fim da história

 

acumulando um pé-de-meia para um futuro tão

 

curto que logo veio & pingou o ponto final

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h02
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