pesa-nervos


gastão cruz

 

 

Substância escura

 

Ele vinha sentar-se junto à chávena

falando devagar com a voz grave

amável e feroz de quem achava

a chave dos seus dias nas palavras

 

O braço pontual como o anel

vivo dum rio vivo repousava

entre as margens paradas da instável

mesa parede rede invariável

 

A manga do casaco a luz da tarde

cobria de silêncio em cada pausa

A voz substância escura como a tarde

retomava o trabalho como a poalha

 

ilúcida da tarde sobre a toalha

inútil do crepúsculo Ele estava

sentado entre as palavras e trazia

no silêncio da mão uma vara de prata

 

 

 

In O pianista, 1984.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h05
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Uma Rua – Gonçalo M. Tavares

 

Entro na Rua Frank O`Hara

Helicópteros conseguem voar mais baixo

Que o cheiro das flores:

O ruído das hélices não ultrapassa o metro e meio.

Um homem gordo move-se porque adormeceu: sonha.

A digestão é a acção mais excitante de um solitário,

E os meninos tornam-se sérios quando vêem lá em cima

O bombardeiro.

As bombas não deixam tempo para se ver quem ganha

Aqui em baixo no xadrez.

Uma mulher de dicção espantosa

Está calçada a olhar para o caracol.

Minha senhora, como é bela a sua

Indefinição.

Helicópteros inimigos acabaram de atacar a minha

Colecção de flautas.

O homem solitário não tem razões

Para amaldiçoar a guerra. E não o faz.

 

[do livro 1, que a Bertand Brasil publicou recentemente. Gonçalo M. Tavares é um dos poetas portugueses contemporâneos mais interessantes.]

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h12
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Dois poemas de Sebastião Uchoa Leite

 

Biografia de uma Idéia

 

ao fascínio do poeta pela palavra

só iguala o da víbora pela sua presa

as idéias são/não são o forte dos poetas

idéias-dentes que mordem e se remordem:

os poemas são o remorso dos códigos e/ou

a poesia é o perfeito vazio absoluto

os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou

erupções sem lava e ejaculações sem esperma

ou canhões que detonam em silêncio:

as palavras são denotações do nada ou

serpentes que mordem a sua própria cauda

 

 

Perguntas a H.P. Lovecraft

 

Por que sempre as cidades ciclópicas com altas torres de cantaria negra? Por que formas e cores inimagináveis vindas do espaço, vozes estaladas ou zumbidas e os cheiros insuportáveis? Por que ventos frios e pesadelos que são reais? Por que o ignoto nos repugna e por que o fascínio do repulsivo? Por que mundos perdidos no tempo anterior ao homem? Por que os Antigos eram sempre superiores, mas repelentes? Por que algo, sempre, deve calar-se? Por que os reinos informes da infinitude? Por que sempre as substâncias viscosas e verdes? Por que Aqueles são ameaçadores? Por que as coisas se

evaporam? Por que a incógnita nos causa horror?

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h42
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[coleção salsugem]

 

 

3. De Portugal, Daniel Faria (1971-1999). Do livro: Homens que são como lugares mal situados, 1998.

 

 

Trago os instrumentos do fogo
Ponho-os na boca
Ponho-os no coração

 

Trago os instrumentos da respiração
– Uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo –
E suspendo-os nos ramos como pinhas que dão sombra
Um lugar fresco para os deportados de Sião nas margens

 

Trouxe também os instrumentos dos mineiros

Uma luz na cabeça voltada para o pensamento
Um olhar profundo
O modo prisioneiro de virem livremente para fora

 

E trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação permanente

Das mãos
Para o instrumento difícil
Do silêncio

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h38
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show: Echo and the bunnymen

 

TUMULTUADA LEMBRANÇA DE UM SHOW DE ROCK QUE, PELO MENOS, ENTROU PARA A MINHA HISTÓRIA – por Rodrigo de Souza Leão

 

Não me lembro bem do show que mais gostei em minha vida. Mas algumas coisas ficaram marcadas na memória. Eu guardava a filipeta deste espetáculo como se fosse um marco em minha existência. Hoje não encontro, entre os meus pertences, no meu quarto caótico, a lembrança valiosa de que estive lá. Mas eu vi tudo.

Lembro-me que havia muito gelo seco e era na década de oitenta. Minha memória está um pouco tumultuada devido ao tanto de remédio que tomo atualmente. Mas, vamos lá: quem sabe enquanto escrevo não vá me lembrando de mais coisas importantes deste dia.

Era noite. Os caras demoraram a entrar em cena. Não havia banda de abertura: o que por si só já era uma dádiva. Eu estava lá para vê-los apenas.

O que me impulsionou até o local foi ver os novos rapazes de Liverpool. Naquela época ouvia todas as novidades no programa Rock Alive, do Maurício Valadares. Foi neste programa que escutei pela primeira vez esta banda sobre a qual estou querendo escrever agora. Ela era figura carimbada na programação da Fluminense FM. Saudade dos tempos em que eu saia de casa para ver grandes eventos com grandes nomes. Ou nomes que eram grandes para as pessoas que freqüentavam o Crepúsculo de Cubatão – o maior antro dark da cidade – onde os jovens pareciam ingleses.

Não me lembro da primeira música que tocaram. Mas a sensação foi imediata. Tive uma crise de alegria. Uma euforia. Todo mundo pulando. O Canecão cheio de gente. Eu cheguei a chorar na hora em que tocaram seu maior sucesso. O baterista, saudoso Pete de Freitas, esmurrava a bateria. Eram três guitarristas. Dois oficiais e um convidado. Quem se lembra o nome do convidado? Eu esqueci. Lembro-me que havia um canhão de luz (em diagonal com o palco) que iluminava o cantor Ian. A luz vinha de trás e fazia da performance dos seis caras algo etéreo. Era sublime.

Estou falando de um sonho de uma noite de verão, primavera, outono ou inverno. Eu perdi a filipeta e não me lembro da data, mas aquela madrugada foi inesquecível. Encontrei uma garota de cabelo azul que os adorava também. Passamos a nos adorar. Ficamos juntos um tempo ouvindo aquele Echo e cantando junto as canções que marcaram a minha adolescência.

Tempo bão que não volta mais.       

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 11h51
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