TUMULTUADA LEMBRANÇA DE UM SHOW DE ROCK QUE, PELO MENOS, ENTROU PARA A MINHA HISTÓRIA – por Rodrigo de Souza Leão
Não me lembro bem do show que mais gostei em minha vida. Mas algumas coisas ficaram marcadas na memória. Eu guardava a filipeta deste espetáculo como se fosse um marco em minha existência. Hoje não encontro, entre os meus pertences, no meu quarto caótico, a lembrança valiosa de que estive lá. Mas eu vi tudo.
Lembro-me que havia muito gelo seco e era na década de oitenta. Minha memória está um pouco tumultuada devido ao tanto de remédio que tomo atualmente. Mas, vamos lá: quem sabe enquanto escrevo não vá me lembrando de mais coisas importantes deste dia.
Era noite. Os caras demoraram a entrar em cena. Não havia banda de abertura: o que por si só já era uma dádiva. Eu estava lá para vê-los apenas.
O que me impulsionou até o local foi ver os novos rapazes de Liverpool. Naquela época ouvia todas as novidades no programa Rock Alive, do Maurício Valadares. Foi neste programa que escutei pela primeira vez esta banda sobre a qual estou querendo escrever agora. Ela era figura carimbada na programação da Fluminense FM. Saudade dos tempos em que eu saia de casa para ver grandes eventos com grandes nomes. Ou nomes que eram grandes para as pessoas que freqüentavam o Crepúsculo de Cubatão – o maior antro dark da cidade – onde os jovens pareciam ingleses.
Não me lembro da primeira música que tocaram. Mas a sensação foi imediata. Tive uma crise de alegria. Uma euforia. Todo mundo pulando. O Canecão cheio de gente. Eu cheguei a chorar na hora em que tocaram seu maior sucesso. O baterista, saudoso Pete de Freitas, esmurrava a bateria. Eram três guitarristas. Dois oficiais e um convidado. Quem se lembra o nome do convidado? Eu esqueci. Lembro-me que havia um canhão de luz (em diagonal com o palco) que iluminava o cantor Ian. A luz vinha de trás e fazia da performance dos seis caras algo etéreo. Era sublime.
Estou falando de um sonho de uma noite de verão, primavera, outono ou inverno. Eu perdi a filipeta e não me lembro da data, mas aquela madrugada foi inesquecível. Encontrei uma garota de cabelo azul que os adorava também. Passamos a nos adorar. Ficamos juntos um tempo ouvindo aquele Echo e cantando junto as canções que marcaram a minha adolescência.
Tempo bão que não volta mais.