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Poema de Vasco Graça Moura
com pedaços de fita adesiva, cola-se ao tapume este retrato de menina, de luz contente nos olhos, quente enlevo do afago dos pais, sorriso de olhar barcos e de brincar na areia, ao sol, entre as palmeiras balouçando ao vento, escrito à mão: «o corpo foi encontrado». inútil continuar a procurar alexandra-anita brauner. menina e moça a levaram, de casa de seus pais, para longes águas.
[do livro Laocoonte, rimas várias, andamentos graves, Lisboa: Quetzal Editores, 2005.]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h02
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“Primeiro delírio” do ainda inédito Todos os cachorros são azuis
de Rodrigo de Souza Leão
Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo marinho que nadava no aquário.
Ele tem um problema mental. Será que tem alguma seqüela? No fundo deste meu mundo, lá no quarto escurecido por doses de Litrisan veio um psiquiatra e baionetou uma química na minha celha esquerda. Enquanto outro puxava a minha banha, esticando e esticando para que não sentisse a injeção de Bezetacil.
Bezeta.
Bezeta.
Uma dor na bunda imensa. Tudo girando ao meu redor e eu girando também. Tiro uma meleca e coloco na mesa do canto, bem longe da escuridão no quarto. A escuridão é acética. Só o pessoal de branco pode freqüentar aquela linha impura. Seguram-me de novo. Recebo o beijo de minha mãe. Deve ser dia de visita. Acordo e como uma lasca de goiabada com o sanduíche de atum que mamãe trouxe para mim. Escuto uma música tão alta que não entro nos meus pensamentos e estou fora, agora a cocaína não vai chegar. A conexão foi interrompida.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h55
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As árvores – por Arnaldo Antunes
As árvores são fáceis de achar. Ficam plantadas no chão. Mamam do sol pelas folhas e pela terra bebem água. Cantam no vento e recebem a chuva de galhos abertos. Há as que dão frutas e as que dão frutos. As de copa larga e as que habitam esquilos. As que chovem depois da chuva, as cabeludas. As mais jovens; mudas. As árvores ficam paradas. Uma a uma enfileiradas na alameda. Crescem para cima, como as pessoas. Mas nunca se deitam. O céu aceitam. Crescem como as pessoas, mas não são soltas nos passos. São maiores mas ocupam menos espaço.
[do livro As coisas, publicado em 1998 pela editora Iluminuras]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h38
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Uma canção só – por Franklin Alves
Não há vogais a mais no silêncio; uma canção ou duas. Uma sobre os poetas, outra, sobre a poesia. A primeira de Maiakovski, a segunda de Jean-Luc Nancy. Enfim, duas canções que não são apenas canções baratas:
1. “Eu não forneço nenhum regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas”.
2. “A poesia é, por essência, mais do que e algo diferente da própria poesia, Ou antes: a própria poesia pode perfeitamente encontrar-se onde não existe propriamente poesia. Ela pode mesmo ser o contrário ou a rejeição da poesia, e de toda a poesia. A poesia não coincide consigo mesma: talvez seja essa não-coincidência, essa impropriedade substancial, aquilo que faz propriamente a poesia”.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h22
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Algum dia você poderia?
de Maiakovski
Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.
Nas escamas de um peixe de estanho
li lábios novos chamando.
E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?
1913
[Tradução de Haroldo de Campos. A imagem de Maiakovski foi duplicada e triplicada pela equipe do Pesa-Nervos]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h12
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