pesa-nervos


Henri Michaux por Daniela Osvald Ramos

O dia, os dias, o fim dos dias

Sem que eles falem, lapidado por seus pensamentos

Mais um dia de menor nível. Gestos sem sombras
A qual século é preciso se inclinar para perceber?

Samambaias, samambaias, diríamos suspiros, por toda parte, suspiros
O vento espalha as folhas soltas

Força das macas, há cento e oitenta mil anos já se nascia
para apodrecer, para perecer, para sofrer

Este dia, quando éramos semelhantes
quantidade de semelhantes
dia em que o vento se traga
dia de pensamentos insustentáveis

Vejo os homens imóveis
deitados nas canoas

Partir.
De qualquer maneira, partir.

A longa lâmina do fluxo d´água deterá a palavra.

 

[da oitava edição da revista Zunái, que ainda traz traduções de Carlos Williams, Tristan Tzara, César Vallejo, Cummings e outros; um caderno especial sobre os cinqüenta anos da Poesia Concreta e muito mais. Confira no link: www.revistazunai.com.br]

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h09
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[coleção salsugem] final

 

4. Em Yao Jingming (ou, para os próximos, Manuel Yao) a língua portuguesa não é a primeira. Yao é chinês, nascido em Pequim (1958). Morou algum tempo em Portugal, onde trabalhou na Embaixada chinesa. Hoje é professor da Universidade de Macau. Publicou dois livros de poesia: Nas asas do vento cego (1990) e Confluências (1997) em parceria com o angolano/macaense Jorge Arrimar. Traduziu na China poetas como Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andersen. Poucos (ou nenhum) são os escritores que usam nossa língua por opção (a linha que separa a opção da necessidade muitas vezes foi tênue durante o último século). Em outros idiomas, lembramos de dois russos que passaram a escrever em inglês, Wladimir Nabokov e Joseph Brodski, e de Beckett, que foi do inglês para o francês. Quem lembrar mais é só dizer. Seguem dois poemas do livro de 1997:

 

Crescemos

com o sangue e a carne

no esqueleto do tempo:

 

clepsidra biológica

onde se tornam mais nítidos

os dias e as noites

 

Abelha de junho

 

Do limiar de junho

voa a abelha

com um cálice de mel

e pousa na boca do lume

 

A doçura estremece

na ponta da língua

e conduz o corpo embriagado

a um charco de luar

onde não sente

a dor da picada



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h18
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Uma das “cidades invisíveis” de Italo Calvino

[com imagem de Maria Helena Vieira da Silva]

 

Da cidade de Zirma, os viajantes retornam com memórias bastante diferentes: um negro cego que grita na multidão, um louco debruçado na cornija de um arranha-céu, uma moça que passeia com um puma na coleira. Na realidade, muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céu há alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nas cornijas, não há puma que não seja criado pelo capricho de uma moça. A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente.

Também retorno de Zirma: minha memória contém dirigíveis que voam em todas as direções à altura das janelas, ruas de lojas em que se desenham tatuagens na pele dos marinheiros, trens subterrâneos apinhados de mulheres obesas entregues ao mormaço. Meus companheiros de viagem, por sua vez, juram ter visto somente um dirigível flutuar entre os pináculos da cidade, somente um tatuador dispor agulhas e tintas e desenhos perfurados sobre a mesa, somente uma mulher-canhão ventilar-se sobre a plataforma de um vagão. A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 21h46
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Um poema de Marcelo Montenegro

 

De tudo, talvez, permaneça

o que significa. O que

não interessa. De tudo,

quem sabe, fique aquilo

que passa. Um gerânio

de aflição. Um gosto

de obturação na boca.

Você de cabelo molhado

saindo do banho.

Uma piada. Um provérbio.

Um buquê de presságios.

Sons de gota na torneira da pia.

Tranqueiras líricas

na velha caixa de sapatos.

De tudo, talvez, restem

bêbadas anotações

no guardanapo.

E aquela música linda

que nunca toca na rádio.

 

[na revista Coyote 3, Primavera, 2002]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h43
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Marcel Duchamp, entrevistado por Pierre Cabanne:

 

PC: Quando era jovem você nunca experimentou o desejo de ter uma cultura artística?

 

MD: Pode ser, mas era um desejo bem medíocre. Queria trabalhar, mas havia em mim uma enorme preguiça. Gosto mais de viver, respirar, do que trabalhar. Não acho que o trabalho que fiz possa ter qualquer importância, do ponto de vista social, no futuro. Então, se você quiser, minha arte seria a de viver; cada segundo, cada lugar, cada respiração é uma obra que não está inscrita em nenhum lugar, que não é nem visual nem cerebral. É uma espécie de euforia constante.

 

[do livro Marcel Duchamp: Engenheiro do tempo perdido. São Paulo: Perspectiva, 2002. Cabanne entrevistou Duchamp em 1966].

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h23
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