
Amada região de Los Palos, Timor Leste
Poema de Jorge Lauten
Lâminas nos pés
O meu galo tem crista vermelha
ágil com lâminas relampejantes
nos pés
Acorda-me a cantar de madrugada
na amada região de Los Palos
Com lâminas relampejantes nos pés
dirijo-me ao centro
da batalha
* * *
Um bom Natal aqui, no Timor e em todos os lugares. O abraço do Rodrigo de Souza Leão, do Franklin Alves e do Leonardo Gandolfi.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h26
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Dois poemas de Luis Miguel Nava
Os nós da escrita
Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há, todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser possível respirar. Tampam-lhe os poros. A própria chuva que neles não se escoa.
Xadrez
Às vezes entretenho-me a sentir cada palavra minha transformar-se em tantas quantas as pessoas que me escutam. As palavras multiplicam-se, irradiam, ficam-lhes no espírito como esses pássaros que, entrando em nossas casas, se debatem horas infinitas contra os vidros. É então que, com freqüência, me apetece abrir o peito, expor todas as vísceras, os órgãos sobre os quais a luz do coração incide, e que, se acaso o sol me sobre na consciência, sinto os dedos regressarem lentamente às mãos. Trazem então consigo uma vontade imensa de jogar, de abrir de novo as vísceras, mostrar por dentro o corpo, esse magnífico xadrez de que o trabalho dos meus órgãos equivale à sucessão dos lances.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h42
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Uma canção só (sem nenhum comentário de Franklin Alves)
She Don't Use Jelly – de Wayne Coyne
I know a girl who thinks of ghosts
She’ll make ya breakfast
She’ll make ya toast
She don’t use butter
She don’t use cheese
She don’t use jelly
Or any of these
She uses vaseline
Vaseline (2x)
I know a guy who goes to shows
When he’s at home and he blows his nose
He don’t use tissues or his sleeve
He don’t use napkins or any of these
He uses magazines
Magazines (3x)
I know a girl who reminds me of Cher
She’s always changing
The color of her hair
She don’t use nothing
That ya buy at the store
She likes her hair to be real orange
She uses tangerines
Tangerines (5x)
[de Transmissions from the satellite heart (1993)]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h58
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Foto de Regina Santos do livro Timor Lorosa’e da UNB
O Timor Leste é o primeiro país que se emancipou no século XXI. 400 anos sob regime da coroa portuguesa e quando finalmente se libertaria – 1975, Revolução dos Cravos e o fim de todos os territórios ultra-marinos portugueses (porque ficava feio o termo colônia ainda em meados do século XX) –, o Timor Leste (ou Lorosa’e), metade de uma pequena ilha no oceano pacífico, foi violentamente invadido pela Indonésia ainda em 1975. O massacre só terminou quando a ONU, 26 anos depois, resolveu intervir e diminuir a destruição. Abaixo segue um poema de Jorge Lauten, poeta timorense que continua sendo um mistério para nós. Conheço poucos poemas de Lauten, alguns numa antologia, outros noutra. Nunca tive dúvidas porém quanto ao fato de que Lauten escrevia em português (apesar de o Timor possuir muitos idiomas, o português é um deles, embora falados por muitos poucos), até que um dia, numa antologia dessas, li um poema seu e em baixo estava escrito: traduzido por Ruy Cinatti. Ora Ruy Cinatti é um conhecido poeta português que morou muitas anos no Timor ainda quando colônia portuguesa. Depois disso, fui correndo ao Google procurar por Jorge Lauten (já havia desistido das bibliotecas, incluindo o Real Gabinete Português de Leitura, não há nada sobre ele). Numa dessas pesquisas, para meu espanto, descobri alguns poemas do timorense em inglês. Hoje já não sei se são esses os originais ou traduções. (L.G.)
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 22h34
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Não Mais Sob a Árvore de Bô
Não mais a pureza de Ramahyana o incenso e o sândalo os pés nus nas pedras do templo
enquanto eles comerem na minha mesa na velha casa de Dili não mais me sentarei sob a árvore de Bô
No longer under the Bo tree No longer the purity of Ramayana incense and sandalwood bare feet on temple stones as long as they're eating at my table in my old house in Dili I won't be sitting under the Bo tree
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 22h28
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