Um trecho de Ontem, romance de Agota Kristof
[uma indicação precisa do amigo Manoel Ricardo de Lima]
O pássaro morto não gosta da chuva. Ele se dissolve, apodrece, solta um odor desagradável.
Nesse caso, incomodado pelo cheiro, sento-me um pouco mais longe.
De vez em quando, faço promessas:
- Vou buscar terra.
Mas não acredito tanto nisso. O pássaro também não acredita. Ele me conhece.
Por que também ele morreu aqui, onde só há pedras?
Um belo fogo também daria conta.
Ou grandes formigas vermelhas.
Só que tudo é muito caro.
Por uma caixa de fósforos é preciso trabalhar meses e as formigas não têm preço nos restaurantes chineses.
Da minha herança, não tenho mais quase nada.
A angústia me toma quando considero o pouco dinheiro que me resta.
No início, eu gastava sem contar, como todo mundo, mas agora, é preciso que eu tome cuidado.
Só vou comprar o absolutamente necessário.
Estão portanto fora de questão terra, pá, formigas, fósforos.
Além disso, feita a reflexão, por que me diria respeito o funeral de um pássaro desconhecido?
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h15
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