pesa-nervos


Walt Whitman (1819-1992), um trecho

 

[...]

 

Por mim passam muitas vozes mudas há tanto tempo,

Vozes das intermináveis gerações de prisioneiros e escravos,

Vozes dos doentes e desesperados e dos larápios e anões,

Vozes dos ciclos de preparação e crescimento,

E dos fios que conectam as estrelas – e do útero e do sêmen paterno,

E dos direitos dos que são oprimidos pelos outros,

Dos deformados e insignificantes e chatos e imbecis e desprezados,

Da neblina no ar e besouros rolando bolas de estrume.

Por mim passaram vozes proibidas,

Vozes dos sexos e luxurias .... vozes veladas, e eu removo o véu,

Vozes indecentes esclarecidas e transformadas por mim.

 

 

[do livro Folhas de Relva (A primeira edição, 1855), com tradução e posfácio de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngüe, Iluminuras, 2005]

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h16
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Poema inédito de Jorge Lucio de Campos

 

Incandescências

 

1

 

o desejo me confunde tão disposto a nada,

na carne impacta do mundo que se nega um pouco o cabelo

descuidado

a testa

guarnecida o nariz de corredeiras

por favor: trace uma

 

2

 

linha em minhas costas de um lado ao outro agora,

grei a cicatriz do olhar, a emoção aberta, a luz da voz sussurrada

a vida que já

foi gentil

ontem brilhei no escuro um sonho

ao contrário

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h03
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Trecho de O mal de Montano, romance de Enrique Vila-Matas

 

Até quando teremos de ouvir comentários de grandes escritores dizendo que escrevem para não morrer de todo? Já sabemos do que nos estão pretensiosamente falando, que classe de imortalidade manipulam. Escutemos um exemplo dessas aspirações, ouçamos André Gide: “As razões que me impelem a escrever são múltiplas e as mais importantes são, me parece, as mais secretas. Talvez sobretudo esta: pôr algo ao resguardo da morte” (Diário, 27 de julho de 1922) (...).

 

Mas pode-se seguir confiando ou crendo numa imortalidade própria? Interessa-me mais o mundo do escritor Kafka, que não desejava pôr nada ao abrigo da morte. E mais, dirigia-se à capacidade de morrer através da obra que escrevia, o que na realidade vem a significar que a obra kafkiana era por si mesma uma vivência da morte – Kafka sempre foi um morto em vida –, uma vivência que, aparentemente, se nos atemos ao que sugere Kafka, seria preciso conhecer de antemão para chegar à obra, à morte. Mais kafkiano, mas também mais lúcido, impossível.

 

Prefiro a visão de Kafka à de Gide, nosso afã deveria centrar-se na necessidade de desaparecer na obra. Se olharmos com atenção o mundo de hoje em plena transformação, veremos que o que faz falta não é permanecer “na eternidade preguiçosa dos idosos” (como dizia Blanchot), mas mudar, desaparecer para colaborar na transformação universal: agir sem nome e não ser um puro nome ocioso.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h34
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Campo, chinês e sono

de Carlos Drummond de Andrade

 

A João Cabral de Melo Neto

 

O chinês deitado

no campo. O campo é azul,

roxo também. O campo,

o mundo e todas as coisas

têm um ar de chinês

deitado e que dorme.

Como saber se está sonhando?

O sono é perfeito. Formigas

crescem, estrelas latejam,

peixes são fluidos.

E árvores dizem qualquer coisa

que não entendes. Há um chinês

dormindo no campo. Há um campo

cheio de sono e antigas confidências.

Debruça-te no ouvido, ouve o murmúrio

do sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens.

O campo está dormindo e forma um chinês

de suave rosto inclinado

no vão do tempo.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h03
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O tempo – por Joan Brossa

 

Este verso é o presente.

 

O verso que você leu é o passado

– já envelheceu depois da leitura.

O que resta do poema é o futuro,

que existe fora da sua

percepção.

 

As palavras

estão aqui, se você as leu

ou não. E todo o poder terrestre

não pode mudar isso.

 

(trad. Vanderlei Mendonça)

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h50
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