
William Burroughs, um trecho da sua autobiografia Junky
Nasci em 1914, numa sólida casa em tijolo aparente, de três andares, numa grande cidade do Meio Oeste. Meus velhos viviam bem. Meu pai tocava seu próprio negócio madeireiro. (...) Eu podia vir aqui com uma dessas conversas nostálgicas sobre o médico alemão que morava ao lado e os ratos que rondavam o quintal e o carrinho elétrico da minha tia e o meu sapo de estimação que vivia na beira do laguinho dos peixes.
Na verdade, minhas primeiras lembranças são matizadas pelo medo de pesadelos. Eu tinha medo de ficar sozinho, medo do escuro e medo de dormir, por causa dos pesadelos, em que um horror sobrenatural estava sempre a ponto de se materializar. Tinha medo de que um dia, ao acordar, o pesadelo ainda estivesse lá. Me lembro de uma empregada falando sobre ópio, que o ópio trazia lindos sonhos, e eu disse: Vou fumar ópio quando crescer.
Quando criança eu vivia assolado por alucinações. Uma vez, acordei de manhã bem cedo e vi uns homenzinhos brincando numa casa de cubos que eu tinha erguido. Não tive medo, só uma sensação de imobilidade e espanto maravilhado. Outra alucinação ou pesadelo muito comum envolvia "animais na parede", e começava com o delírio provocado por uma febre estranha, jamais diagnosticada, que eu costumava ter aos quatro ou cinco anos.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 15h55
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Uma canção só – por Victor Shlovski
[com imagem de Richard Serra]
O hábito devora trabalhos, roupas, móveis, a esposa e o medo da guerra. E a arte existe para que se possa recuperar a sensação de vida; existe para fazer com que as pessoas sintam as coisas, para tornar a pedra pedregosa. O propósito da arte é transmitir a sensação das coisas como elas são percebidas e não como elas são conhecidas.
[A arte como procedimento. In: Rebeca Peixoto das Silva (org.) Teoria da literatura: formalistas russos. Porto Alegre, Globo, 1971]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 14h28
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