
A auto-expressão é sagrada e fatal (fragmentos)
com texto e imagem de Louise Bourgeois
1. Meu trabalho inicial é o medo de cair. Depois se tornou a arte de cair. Como cair sem se machucar. Mais tarde é arte de se manter no ar.
5. Minhas facas são como uma língua – eu te amo aqui, eu te odeio. Se você não me ama, estou pronta para te atacar. Elas têm fio duplo.
8. A cor é mais forte que a linguagem.
O vermelho é uma afirmação a qualquer custo – não importam os riscos da luta –, de contradição, de agressão. Simboliza a intensidade das emoções envolvidas.
10. As espirais – em que sentido girar – representam a fragilidade num espaço aberto. O medo faz o mundo girar.
49. Se uma pessoa é artista, é uma garantia de sanidade. Ela é capaz de suportar seu tormento.
[do livro Destruição do pai, Reconstrução do pai]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h14
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A Morte dos símbolos
por Sebastião Uchoa Leite
demônios tigres punhais
serpentes enforcados corvos
espelhos labirintos mandalas
livros caixas relógios mapas
chaves números mágicos
duplos metamorfoses monstros
vamos destruir a máquina das metáforas?
[do livro Isso Não É Aquilo, 1982]
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h08
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Perda de auréola – de Charles Baudelaire
[tradução de Aurélio Buarque de Holanda]
- Mas o quê? Você por aqui, meu caro? Você em tão mau lugar! Você, o bebedor de quinta-essência! Você, o comedor de ambrosia! Francamente, é de surpreender.
- Um caro, você bem conhece o meu pavor dos cavalos e das carruagens. Ainda há pouco, quando atravessava a toda a pressa o bulevar, saltitando na lama, através desse caos movediço onde a morte surge a galope de todos os lados a um só tempo, a minha aureola, num movimento precipitado, escorregou-me da cabeça e caiu no lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei menos desagradável perder as minhas insígnias do que ter os ossos rebentados. De resto, disse com os meus botões, há males que vem para bem. Agora posso passear incógnito, praticar ações vis, e entregar-me à crápula, como os simples mortais. E aqui estou, inteiramente igual a você, como está vendo!
- Você deveria ao menos pôr um anúncio, ou comunicar a perda ao comissário.
- Ah! Não. Estou bem assim. Somente você me reconheceu. Aliás, a dignidade me entedia. Depois, alegra-me pensar que talvez algum mau poeta encontre a auréola, e com ela impudentemente se adorne. Fazer alguém feliz, que prazer! E sobretudo um feliz que me fará rir! Pense no X, ou no Z! Xi! Como será engraçado!
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h52
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Um dos “Dois exercícios de língua pária”
por Ricardo Aleixo, do livro Máquina Zero
2
Senso comum e preconceito à parte,
a preta é a cor mais dúbia da paleta:
é “nota preta” a grana, quanto é farta;
se a vida aperta, “a coisa ficou preta”.
Senso comum e preconceito à parte?
Melhor pormos de parte a hipocrisia.
Poetas sabem: palavras têm parte
com o demônio da ideologia.
Talvez seja excesso de otimismo,
mas, creia-me, eu nunca contaria
com esse daí, tão culto, assim, do nada
Extraindo a expressão mais desgastada
(a outra opção é “Quando a vida judia?”)
Para compor seu slogan pró-racismo.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h11
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