pesa-nervos


Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

 

 

À romãzeira que está a secar

 

Todos os diálogos acabam no silêncio,

mesmo o murmúrio entre dedos e folhas,

quando o avesso da mão roça

a grande Natureza manifesta na árvore.

 

Era uma romãzeira em flor e fruto,

segura do seu reverdecer, loquaz.

Aos periquitos, na larga capoeira defronte,

respondia com o júbilo da mudez.

 

Mas ante mim, que cantava a canto,

Ela deixa-se estar como está um surdo

Junto de um cego trovador lírico,

Até que ambas aceitemos o fim.

 

 

(Cenas vivas, 2000)

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h27
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Poema de Ruy Espinheira Filho

 

 

Os objetos

permanecem claros.

 

Habita a moldura

uma mulher de faces

cor-de-rosa.

 

Sobre a mesa de mármore

um cavaleiro de porcelana

saúda as visitas.

 

A caneta ainda escreve

com a mesma tinta

de um azul levemente melancólico.

 

Na gaveta, dormindo

sob cartas e poemas,

o revólver aguarda.

 

 

(1966)



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h03
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Um pouco de George Perec

 

 

Diante do mundo, o indiferente não é nem ignorante nem hostil. Seu propósito não é redescobrir as sãs alegrias do analfabetismo, mas, lendo, não conceder nenhum privilégio às suas leituras. Seu propósito não é andar inteiramente nu, mas estar vestido sem que isto implique necessariamente esmero ou desleixo; seu propósito não é deixar-se morrer de fome, mas somente, alimentar-se. Não que você queira realizar tais atos com total inocência, pois inocência é um termo muito forte; somente, simplesmente, se este “simplesmente” puder ter um significado, deixá-los num terreno neutro, evidente, livre de qualquer valor, e não funcional, sobretudo não funcional, pois funcional é o pior dos valores, o mais dissimulado, o mais comprometedor, porém patente, factual, irredutível; que não haja nada a dizer senão: você lê, está vestido, alimenta-se, dorme, anda, que sejam ações, gestos, porém nada de provas, nada de moeda de câmbio: sua roupa, seu alimento, suas leituras não falarão mais por você e você não tentará mais ludibriá-los. Você não mais lhes confiará a esgotante, a impossível, a mortal tarefa de representá-lo.

 

(Um homem que dorme, trad. Dalva Laredo Diniz)

 

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h03
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Poema de Edmond Jabès   trad. Caio Meira

 

Apelo (1985-1988)

 

*

Rosto do presente. Rosto do passado.

Um véu os separa. Uma cortina úmida.

O olho, de novo enevoado, de uma lágrima antiga.

Melancolia. Melancolia.

 

Morremos do que nos reduz.

 

*

Ele tinha - parecia-lhe - mil

coisas a dizer

a estas palavras que não diziam nada;

que esperavam, alinhadas;

a estas palavras clandestinas,

sem passado ou destino.

E isto o perturbava ao desatino;

a ponto de não ter, ele próprio, mais

nada a dizer,

então.

 

*

Procura meu nome nas antologias.

Tu o encontrarás e não o encontrarás.

Procura meu nome nos dicionários.

Tu o encontrarás e não o encontrarás.

Procura o meu nome nas enciclopédias.

Tu o encontrarás e não o encontrarás.

O que importa? Tive um dia um nome?

Ainda, quando eu morrer, não procures

meu nome nos cemitérios

nem alhures.

E cessa de atormentar, hoje, aquele

que não pode responder ao apelo.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h04
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Poema de Lea Goldberg   trad. Cecília Meireles

 

 

Sete dias esperei que uma lágrima caísse

de uma lembrança do que existiu outrora.

Mas não me concedeste a última graça de uma lágrima

e por isso eu não ressuscitarei.

 

Sete noites esperei sonhar que sonhavas

restituir-me o meu rosto dolorido.

E não sonhaste comigo nem na sétima noite.

Por isso eu não ressuscitarei.

 

Sete dias e sete noites

Depois da minha morte não falaste em meu nome.

Por que, então, ressuscitaria?

para quem?

 

 

 

(Antologia da literatura hebraica moderna, 1969)

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h13
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