Poema de Edmond Jabès trad. Caio Meira
Apelo (1985-1988)
*
Rosto do presente. Rosto do passado.
Um véu os separa. Uma cortina úmida.
O olho, de novo enevoado, de uma lágrima antiga.
Melancolia. Melancolia.
Morremos do que nos reduz.
*
Ele tinha - parecia-lhe - mil
coisas a dizer
a estas palavras que não diziam nada;
que esperavam, alinhadas;
a estas palavras clandestinas,
sem passado ou destino.
E isto o perturbava ao desatino;
a ponto de não ter, ele próprio, mais
nada a dizer,
então.
*
Procura meu nome nas antologias.
Tu o encontrarás e não o encontrarás.
Procura meu nome nos dicionários.
Tu o encontrarás e não o encontrarás.
Procura o meu nome nas enciclopédias.
Tu o encontrarás e não o encontrarás.
O que importa? Tive um dia um nome?
Ainda, quando eu morrer, não procures
meu nome nos cemitérios
nem alhures.
E cessa de atormentar, hoje, aquele
que não pode responder ao apelo.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h04
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