pesa-nervos


O amigo Sebastião Edson Macedo na Califórnia

 

Este país aqui é um problema com o qual é preciso conviver. O país está obcecado pela questão árabe apenas superficialmente, apenas midiaticamente. De resto, o que importa é ter produtos de consumo permanente manufaturados a preço escrevocrata pelos países da América Central. Querem impor democracia, que é coisa de grego, numa cultura que nunca precisou de democracia para construir os tesouros culturais que Bagdad construiu durante séculos, nem precisou de justiça (qual os cristãos romanizados a entendem) para fazer nascer um Ibn Abi Habi’a, um Attar, um Farud Zuhr, ou mesmo um Rumi há 15 séculos atrás. Além disso, a população mergulha obsessivamente na fé forjada pelas maravilhas dos remédios alopáticos destinados a todos os sintomas e desejos físicos inimagináveis, forjada pela indústria automobilística do último conforto, pela infância longa e excessivamente perfeita, pelos esportes competitivos e de afirmação pessoal, pelo instinto de puro heroísmo, pela pretensa justiça fiscal, pela hiper-previdêcia, e pelo sentido íntimo de tudo o que não é tão íntimo e muitas vezes apenas explosão sexual explorada na manipulação social das conveniências e ideais patrilineares, e tudo atravessado pelo desejo de interferir no curso do mundo sob a justificativa de ser este o seu papel no presente (uma coisa meio vocacional e redentora, cheia de certezas ingênuas e parciais e patológicas e perigosamente gregárias, sem o menor desconfiômetro da relatividade de nada) à custa de ideologias messiânicas inquietantemente misturadas ao óbvio esforço de hedonismo da vida cotidianamente feliz, do sentido de cooperação mascarando o sentido de imposição, e de um futuro hipotético, inexistente, assustadoramente imprevisível, conservado e preservado (como idéia fixa) de um mal que, sem exagero, faz parte até de cada flor na calçada alheia; mas tudo muito naturalizado, sem problemas, como se essa vida mesma pudesse existir assim, ideal e em absoluto, como se promove nas suas igrejas protestantes cheias de pessoas trazendo a sua parte de felicidade aos domingos comunitários antes do barbecue, e nas caras felizes e hidratadas dos anúncios dos seus supermercados e lojas de consumo ligeiro cheios de produtos absolutamente novidade, absolutamente imperdível, absolutamente inacreditável que você ainda não o tenha adquirido, como um produto definitivo, à venda em tudo, a todos.

...

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h02
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Livros degenerados – por Pedro Mexia

 

Que regimes despóticos ou comunidades obscurantistas tenham perseguido, proibido e destruído livros não é estranho. É naturalíssimo que os nazis queimassem obras de judeus e "degenerados" ou que os comunistas banissem os "formalistas" e os "decadentes". E o mesmo se diga do Index com que a Igreja censurou os heterodoxos durante séculos. O que não faz sentido é atitudes dessas em sociedades democráticas. E, no entanto, isso é muitíssimo comum, nomeadamente nos Estados Unidos. A lista contida no site Forbidden Library enumera inúmeros livros contestados ou proibidos ao longo dos tempos, e em especial nos liceus americanos nas últimas décadas. É verdade que muitos desses livros foram contestados sem sucesso; mas que exista gente que defenda que certos livros deixem de ser lidos ou guardados em bibliotecas por causa da sua agendazinha sectária, eis um sinal suficientemente alarmante. Deixo alguns exemplos dessas peripécias.

As Aventuras de Tom Sawyer, A Cabana do Pai Tomás e Tudo o Vento Levou foram repetidamente contestados ou proibidos por serem considerados romances racistas. Twelfth Night, de Shakespeare, foi retirada da disciplina de Inglês de um liceu em Merrimack, New Hampshire (1996), porque "encorajava a homossexualidade como estilo de vida alternativo". O álbum The Rolling Stone Illustrated History of Rock and Roll foi atacado no Kentucky (1982) porque, disseram os acusadores, "tornará as nossas crianças imorais e indecentes". No Alabama (1983), a peça A Casa da Boneca, de Henrik Ibsen, foi contestada por conter opiniões feministas. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, várias vezes banido, foi atacado como leitura obrigatória na Califórnia (1993) porque se "centra em actividades negativas". As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, foi contestado em escolas da Carolina do Norte (1991) porque usa o nome de Jesus "de modo obsceno e vão, com referências sexuais inapropriadas". 1984 , de George Orwell , foi atacado em Jackson County, Florida (1981) por ser "pró-comunista [!] e conter matéria sexual explícita". E o Diário de Anne Frank foi contestado no Alabama (1983) por ser "muito deprimente". [Lista completa em http//forbiddenlibrary.com]

 

 

Publicado no Diário de notícias (Portugal)



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h03
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Louis MacNeice (Belfast, 1907-1963)

 

Reflexos

 

O espelho na lareira reflete a refletida

Sala em minhas janelas; no espelho, à noite, esses efeitos

Mostram-me duas salas e na primeira o esquerdo é direito,

Enquanto a segunda, para lá da janela, tem a imagem corrigida

Mas aí estou, de costas para minhas costas. A lâmpada

Comum está três vezes no espelho, duas na janela,

O fogo no espelho jaz duas salas além, pela janela,

E pela janela chega o fogo ao terraço, uma sala depois,

E minha sala real é um sanduíche entre invenções

Da noite, luzes, vidros – e em todas as direções

Vejo além dos reflexos o brilho morto

Das lâmpadas da rua em minha sala encalhada

Que um táxi pode atravessar até à estante

Cujos livros ninguém pode ler e, vencendo a lareira

Que não me aquece, chegar até a minha mesa

Onde não posso escrever, porque não sou canhoto.

 

 

Jorge Wanderley, 22 ingleses modernos, Civilização brasileira, 1993



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h07
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O grande desastre aéreo de ontem – de Jorge de Lima

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu stradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h01
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Hey Ho Let´s Go! – por Franklin Alves

 

Já disse que o primeiro disco dos Ramones foi gravado em pouco tempo e por muito pouca grana. São menos de trinta minutos de música, quatorze faixas: “Beat on the brat”, “I wanna be your boyfriend”, “Blitzkrieg Bop”, “Havana affair” e tantas outras. Eu sempre achei esquisita a faixa “Now I wanna sniff some glue”. E não é para achar? Baudelaire uma vez afirmou: “o apaixonado pela vida universal entra na multidão como se isso lhe aparecesse como um reservatório de eletricidade”. Um grande “reservatório de energia” é a definição certeira para um show dos Ramones? Talvez sim. Ele, o lírico francês, certamente ia gostar destes “rapazes” de Nova York.

Um, dois, três, quatro – é isso!

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h03
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