pesa-nervos


Günter Kunert

[tradução de Fernanda Portela]

 

Dias e dias

 

Dias de desalento, dias

de desespero, dias de negrura

e agrura: todos os golpes

de perto e de longe acertam em ti.

Surge a morte como folha de jornal:

és oficialmente notificado

da tua sentença:

uma guerra está a ser movida contra ti,

os exércitos dos teus amigos estão já em marcha,

são fomentadas ovações,

ameaçam-te com distinções, condecorações, louros.

A bondade avoluma-se, o amor do próximo

quer transbordar:

até o tempo se voltou

contra ti: o sol brilha

para ti apenas.

 

Veredicto: não te será perdoado,

que o teu rosto retrate o de todos

os outros.

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h27
[   ] [ envie esta mensagem ]




Camões dirige-se aos seus contemporâneos

de Jorge de Sena

 

Podereis roubar-me tudo:

as idéias, as palavras, as imagens,

e também as metáforas, os temas, os motivos,

os símbolos, e a primazia

nas dores sofridas de uma língua nova,

no entendimento de outros, na coragem

de combater, julgar, de penetrar

em receosos de amor para que sois castrados.

E podereis depois não me citar,

suprimir-me, ignorar-me, acalmar até

outros ladrões mais felizes.

Não importa nada: que o castigo

será terrível. Não só quando

vossos netos não souberem já quem sois

terão de me saber melhor ainda

do que fingis que não sabeis,

como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,

reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,

tido por meu, contado como meu,

até mesmo aquele pouco e miserável

que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.

Nada tereis, mas nada: nem os ossos,

que um vosso esqueleto há-de ser buscado,

para passar por meu. E para outros ladros,

iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h14
[   ] [ envie esta mensagem ]




Que faire d'un monde

Que fazer de um mundo

de Jacques Roubaud
tradução de Duda Machado

que faire d'un monde qu'on ne dit pas
que fazer de um mundo que não se diz
dont nul n'a su ne sait rien dire, rien
do qual nenhum não soube nenhum não sabe nada dizer, nada
pas un détail, pas une ocurrence particulière accrochée d'une
description

nem um detalhe, nem uma ocorrência particular enganchada a uma descrição
un monde d'une généralité si extrême
um mundo de uma generalidade tão extrema
que l'unique, le sans répétition, y est abrogé
que o único, o sem repetição, aí está ab-rogado
dès l'instant que personne ne peut comprendre
desde o instante que não ninguém pode compreender
dont personnne dans sa bouche ne sait que faire
do qual ninguém em sua boca não sabe fazer senão
contourner ce dire, l'expulser d'une syllabe
contornar este dizer, expulsá-lo com uma sílaba
le cracher avec dégoût
cuspi-lo com desgosto
un monde d'une imprécision abominable
um mundo de uma imprecisão abominável
avec lequel je dois vivre
com o qual eu devo viver
à qui je dois, incessant, le regard?
a quem eu devo, incessante, o olhar?

[publicado no caderno Mais!, Folha de São Paulo]

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h33
[   ] [ envie esta mensagem ]




Rumo ao sumo de Paulo Leminski

 

            Disfarça, tem gente olhando.

Uns, olham pro alto,

            cometas, luas, galáxias.

Outros, olham de banda,

            Luneta, luares, sintaxes.

De frente ou de lado,

            sempre tem gente olhando,

olhando ou sendo olhado.

 

            Outros olham para baixo,

procurando algum vestígio

            do tempo que a gente acha,

em busca do espaço perdido.

            Raros olham para dentro,

já que dentro não tem nada.

            Apenas um peso imenso,

a alma, esse conto de fada.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h04
[   ] [ envie esta mensagem ]




Três poemas de Ana Rüsche

[do livro Rasgada, com imagem de Cindy Sherman]

 

Esperança

 

Ele disse: – Hoje seus olhos estão mais azuis.

As palavras certas podiam ainda salvar a humanidade.

 

Festa de J.

 

primeiro os grampos de meu cabelo despencaram

depois foi a vez das roupas

por fim eu própria me esponjava no chão

 

Lugar comum 1: A exclusão

 

Cidade de Deus – às vezes o casulo é tão

apertado

que as lagartas morrem

sem sonhar que podiam ser borboletas

 



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h33
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
  02/04/2006 a 08/04/2006
  26/03/2006 a 01/04/2006
  19/03/2006 a 25/03/2006
  12/03/2006 a 18/03/2006
  05/03/2006 a 11/03/2006
  26/02/2006 a 04/03/2006
  19/02/2006 a 25/02/2006
  12/02/2006 a 18/02/2006
  05/02/2006 a 11/02/2006
  29/01/2006 a 04/02/2006
  22/01/2006 a 28/01/2006
  15/01/2006 a 21/01/2006
  08/01/2006 a 14/01/2006
  01/01/2006 a 07/01/2006
  25/12/2005 a 31/12/2005
  18/12/2005 a 24/12/2005
  11/12/2005 a 17/12/2005
  04/12/2005 a 10/12/2005
  27/11/2005 a 03/12/2005
  20/11/2005 a 26/11/2005
  13/11/2005 a 19/11/2005
  06/11/2005 a 12/11/2005
  30/10/2005 a 05/11/2005
  23/10/2005 a 29/10/2005
  16/10/2005 a 22/10/2005
  09/10/2005 a 15/10/2005
  02/10/2005 a 08/10/2005
  25/09/2005 a 01/10/2005
  18/09/2005 a 24/09/2005
  11/09/2005 a 17/09/2005
  04/09/2005 a 10/09/2005
  28/08/2005 a 03/09/2005
  21/08/2005 a 27/08/2005
  14/08/2005 a 20/08/2005
  07/08/2005 a 13/08/2005
  31/07/2005 a 06/08/2005
  24/07/2005 a 30/07/2005
  17/07/2005 a 23/07/2005
  10/07/2005 a 16/07/2005
  03/07/2005 a 09/07/2005
  26/06/2005 a 02/07/2005
  19/06/2005 a 25/06/2005
  12/06/2005 a 18/06/2005
  05/06/2005 a 11/06/2005
  29/05/2005 a 04/06/2005
  22/05/2005 a 28/05/2005
  15/05/2005 a 21/05/2005
  08/05/2005 a 14/05/2005
  01/05/2005 a 07/05/2005
  24/04/2005 a 30/04/2005
  17/04/2005 a 23/04/2005


Votação
  Dê uma nota para meu blog