pesa-nervos


Poema de Manuel António Pina

[Poesia reunida 1974-2001, Lisboa: Assíro&Alvim, 2001]

 

 

Hegel, filósofo esporádico?

 

 

Ninguém morreu de morte tão natural como Hegel.

Alguns anos antes tinha descoberto, horrorizado,

que Deus o havia colocado exactamente no centro de Tudo.

Morreu como um bárbaro: subitamente o seu

 

coração parou de bater, e inclinou levemente

a cabeça sobre o lado direito.

É sempre Outro quem escreve. (Como poderia o escritor, ele próprio, mesmo quando é

um Filósofo, reconhecer o que está ali para ser escrito?)

 

Quem escreveu o poema A Eleusis que Hegel, há 200 anos, dedicou a Hölderlin? Porque combateu a positividade? A que descobertas chegou Schelling, conservador em Berlim, entre os seus papéis? Que mão deitou fogo, em 1946, à sala dos Apócrifos do Museu Gnótico de Tübingen?

 

 

22 de agosto de 1976



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h46
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Günter Kunert

[traduçãoTeresa Balté]

 

Filme – enrolado ao contrário

 

Quando acordei

Acordei no negro abafado

Do caixote. Ouvi: a terra abriu-se

À minha cabeceira. Torrões

Voaram adejantes de regresso à pá.

A caixa cara comigo o caro

Extinto subiu rapidamente.

A tampa levantou-se e eu

Ergui-me e senti: três

Tiros saíram do meu peito

Para as armas dos soldados que

Se puseram em marcha aspirando

Do ar uma canção

Num passo calmo e firme

Para trás.



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h42
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Boca maldita – de Ricardo Corona

[Lançamento de Corpo Sutil]

 

ter a língua solta

contradizer até o fim

ter a língua má

um não se faz um sim

dar à rasa razão

o mais raro sentido

manter a boca aberta

meter a boca no mundo

falar na hora errada

coisas certas que vêm do fundo

boca maldita que não é beata

língua má que não cria fungo

 

***

 

[Corpo Sutil (Ed. Iluminuras), de Ricardo Corona, Ode mundana (Ed. Medusa), de Luiz Felipe Leprevost e Criptógrafo amador (Ed. Medusa), de Marcelo Sandmann serão lançados na próxima segunda-feira, dia 20 de março, no Original Café a partir das 20 horas. O endereço do café é o seguinte: Vicente Machado, 622, Centro, Curitiba. Mais informações pelo telefone: (41) 3323-4548. Além dos livros, será lançado ainda o número sete da revista de poesia e arte Oroboro, com poemas de Diego Vinhas, textos de Maria Esther Maciel e Wilson Bueno e um ensaio do mais que importante Bataille. Enfim, o evento é imperdível e necessário. Para quem não puder aparecer, pode comprar tanto os livros quanto a revista pelo seguinte endereço: editoramedusa@terra.com.br].



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 23h20
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Duas histórias de Gonçalo M. Tavares

 

O gatinho

 

Havia um gatinho que todos os fins de tarde se aproximava do dono e lhe lambia os sapatos com a sua língua minúscula.

Vencendo uma certa timidez e uma certa precaução higiênica, o homem um dia decidiu descalçar-se para observar se o gato lhe lambia os pés como fazia aos sapatos.

Foi aí que o tigre, que se disfarçara de gato durante anos, decidiu que era o seu momento, e em vez de lamber, comeu.

 

Torcicolo

 

A mulher do Rei, que gostava de passear pelo reino a ver como iam as coisas, um certo dia fez um pequeno torcicolo no pescoço que a impedia de rodar a cabeça. Como o pescoço da Rainha não melhorava o rei ordenou que todo o país começasse a funcionar em trajetórias circulares à frente da varanda do palácio.

 

[do livro O senhor Bretch, 2005]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 00h14
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Um poema de Ruy Duarte de Carvalho

 

45

 

... prazo não tem, diria o oráculo, mas há-de haver um tempo, e o tempo cumprido excede a intenção, mina a vontade, arruína o querer. moral da estória: o tempo em curso agora, a escolha, a escala, a escassa margem de algum ponto de abrigo, liquidou os rumos, sumiu os prazos, anulou as apostas. nada de novo e assim recolhe o cágado ao escuro do frio, digerir cansaços. e quando acorda e vai, não é, magrinho, refazer memórias, nem nada lembra já, o que quer calor acorda é só o sangue, que se engrossou do que dormiu, esqueceu.

 

[do livro Ordem do esquecimento]



Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h23
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