
Tela de Jorge Eiró
Setembro. O vento
[de Max Martins]
Setembro. O vento raja-o
Rasga
e fere-lhe os ombros, menoscaba-o
Sanguíneo olhar agora luze ali
onde a lua de lábios pulsa
expulsa
a sua maré em sépia, fósforo-tardia
Entre o dia da dúvida e a horas das algemas
todas as janelas se fecham: O céu
à tua leitura
o livro lívido à tua aventura
E as folhas caem
desta árvore muda se despindo
estéril
caligráfica
Todos os vôos voltam à sua origem
ao alvo de tua culpa
ao nono mês, ao Mesmo
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h46
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Ardente texto Joshua, Abertura
[de Maria Gabriela Llansol]
– Se eu nada fizer, nada existirá.
– Mas, se fizeres, poderá existir. Ou não.
– Sempre a inexistência tem mais força? – pergunto. Mas não particularmente a ela.
– É a graça, Gabriela – diz. Um dom.
E escreve no seu caderno: “um dom vem colocar-se ao lado do meu fazer para o proteger do nada”.
Escreve para que fique escrito. Para que esse nada leia, e não se equivoque. Note-se________ mesmo quando escreve, nada está decidido. Tudo está por decidir, mas nada está decidido para que assim não seja. Há naquela frase – a que está escrita no caderno –, a disposição de um combate.
Prefiro escrever, desde já, o que sempre, aliás, esteve escrito. Não será traçada, neste texto, a mesma resposta. Convém, no entanto, que fique dito ____ há uma pergunta própria dos que, alguma vez, se amaram em torno do ardente texto Joshua para além da resposta que, de facto______
Sim, houve um momento em que estivemos inquietas na mesma pergunta. Sei que estaremos sempre – ou num tempo incomensurável –, nela inquietas.
Ela ia morrer.
E morreu, Teresa Martin, beguina, filha de Hadewijch de Antuérpia, doutora da Igreja.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 17h26
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Luiza Neto Jorge, 1939-1989
SO-NETO JORGE, Luiza
A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu delizo;
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos – íntimos, insuspeitos –
já caem com a calma as avestruzes
– ou a distância, com os oásis, finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fungo pego, e à vinda.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 18h40
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El califa de Constantino, Théodore Chassériau, 1845
O Alcaide de Santarém
(modificado de Alexandre Herculano)
Alguém vela,
talvez,
no paço de Merwan.
No de Azarat,
posto que nenhuma luz bruxuleie
nas centenas de varandas,
de miradouros,
de pórticos, de balcões
que lhe arrendam
o imenso circuito,
alguém vela por certo.
Escrito por Leão Alves Gandolfi às 16h53
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